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Temos algo a comemorar?

Weverton Duarte Araújo.

Findada a apuração dos votos, Luiz Inácio Lula da Silva é confirmado presidente do Brasil pela quarta vez, com 51,8% dos votos válidos. Ou seja, pouco mais da metade dos eleitores que se posicionaram, já que o nível de abstenção ficou em torno dos 20%. Mais de 30 milhões de eleitores não fizeram uma escolha entre os dois candidatos.

Vale lembrar que, no último pleito (2022), Lula venceu e tivemos um dos momentos mais tristes da nossa história, quando uma grande quantidade de pessoas, inconformadas com o resultado das urnas, tentaram contra o estado democrático de direito, perpetrando uma malsucedida tentativa de golpe de estado, que até hoje, causa dor em muitos, por motivos diversos, desde os que foram exemplarmente condenados, aos familiares desses e, por que não dizer, às tantas famílias desestruturadas pela polarização doentia, que se estabeleceu e ainda permanece.

Ocorre que a vitória alcançada por Lula em 25/10/2026, sinaliza para um país dividido entre nordestinos contra sulistas, evangélicos contra católicos, extremistas de direita contra extremistas de esquerda, primos contra primos, irmãos contra irmãos...

E pior que tudo isso, o candidato vencido, repetindo o discurso do próprio pai, também vencido em 2022, já começou a questionar o resultado das urnas. Se dermos espaço a esse modo infantil de reagir à frustração e à derrota, corremos o risco de nova situação de instabilidade, por mero capricho de parte do nosso povo, mal influenciado, mal educado, mal acostumado. Precisamos aprender a vencer e a perder.

Em publicação recente, falamos sobre a necessidade de se conhecer a história como remédio contra a repetição de erros os quais podem trazer consequências dolorosas e muitas vezes, irreversíveis.

Pois é hora de comemorar o não retrocesso, mas, que não nos deixemos entusiasmar, já que a diferença de votos não chegou a 4.500.000. Ou seja, temos no Brasil, grande quantidade de pessoas que concordam com o discurso e os métodos da extrema direita, pois votaram no representante dessa ideologia. Sim, temos entre nós, pessoas que acham normal apedrejar pessoas que se identificam com ideias opostas às suas; temos um grande número de brasileiros antifeministas, anti-vacinas, terraplanistas, adeptos do armamentismo, da violência física como meio de por fim às discussões, etc.

Temos sim, motivo para comemorar o fato de que, por mais quatro anos, ainda poderemos divergir sem sofrer o peso de um Estado opressor, pseudoteocrata, capacitista, misógino e elitista, como se insinuava a proposta derrotada. Não que o atual governo seja um mar de rosas, mas, é bom lembrarmos que temos quase 50% do nosso povo se identificando com o oposto do que pensam os outros quase 50%. Fora os 20% dos eleitores que não votaram. Fora ainda, aqueles que vivem fora dos registros oficiais e não têm, nem mesmo o direito de votar, por não existirem oficialmente.

O passado deve ser utilizado como baliza, nas nossas ações e opções. Não podemos nos esquecer do que fizeram os governos totalitaristas em todos os tempos, qualquer tenha sido a ideologia que os tenha  direcionado. Tivemos ditadores "de direita" e "de esquerda". Tivemos e ainda temos, lideranças religiosas de todas as matizes, que mataram e ainda matam em nome de Deus.

Enfim, é hora de comemorar sim. Ainda vivemos em uma democracia (frágil e instável, mas, democracia). 

Que não passemos a vergonha de abrir mão disso que herdamos de homens e mulheres corajosos do passado e do presente, que deram e continuam dando suas vidas pela nossa liberdade.

Liberdade que muitas pessoas pelo mundo afora, jamais tiveram a oportunidade de experimentar.