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Sobre estados de ansiedade, seus efeitos e uma proposta terapêutica.

                                            Weverton Duarte Araújo 



O que é ansiedade?
Como ela se manifesta?
Todos estão sujeitos às crises de ansiedade, ou só eu sofro isso?
O que fazer quando vem a "crise"?
Ansiedade pode levar à morte?
Isso tem cura?

A ansiedade parece ser um “estado de espírito”, provocado pela angústia de não se ter certeza de algo, ou pela falta de habilidade do indivíduo em identificar e saber esperar o tempo de cada coisa, ou ainda, de não dar conta de lidar com restrições e inibições, muitas vezes por ter sido criado sem conhecer o NÃO.
O sofrimento por antecipação, caracteriza esse estado, que, para a Psicanálise, está intimamente ligado à estrutura psíquica do sujeito.
Todos nós, uns mais e outros menos, estamos sujeitos a desenvolver sintomas de ansiedade. Dependendo da intensidade da angústia que a provoca, pode-se observar um certo nervosismo, fala desorganizada, sudorese, tremores e outros.

Certas pessoas chegam a apresentar sintomas parecidos com o que se observa nos quadros conhecidos como "síndrome do pânico", onde a pessoa tem a sensação de que vai morrer, ou que vai faltar ar para respirar.

Situações angustiantes sempre existiram e continuarão existindo. A vida não é um parque de diversões. Mas, a partir do momento em que os efeitos da pandemia de COVID-19 começaram a ser sentidos com mais intensidade, percebemos que aumentou a procura por ajuda psicológica, ou terapêutica. Não foi, nem está sendo diferente comigo, ou com você. Todos nós sentimos as mudanças repentinas e nos assustamos com elas.

Um fato que chama a atenção, é que a maioria das pessoas que passaram a procurar ajuda terapêutica, é de jovens, abaixo dos 40 anos e até adolescentes. Esses últimos, parece que estão sendo afetados fortemente pela limitação imposta pela inusitada circunstância.

Sim. Um quadro de ansiedade não tratado com bastante atenção e cuidado, pode levar o sujeito a situações mais graves e a ações contra a própria segurança e saúde. A sensação de falta de uma possibilidade de solução, pode conduzir ao desespero e à fuga suicida, ou a um estado de depressão profunda, que também mata.

Sugiro que se você vier a se sentir nessa situação, lembre-se de que todo mundo está sujeito a isso. Ou seja, não é motivo para se sentir pior do que ninguém. Então... na hora da crise, (se tiver como) corra para debaixo do chuveiro e sinta a água cair sobre você, até relaxar. Ou, pelo contrário, encontre um lugar amplo e arejado, onde possa experimentar a sensação de respirar livremente. Não existe receita pronta, que sirva para todos. Crie a sua própria solução, observando-se.

Uma "crise de ansiedade" tem um tempo de duração. Se você tomar o controle do seu corpo e da sua mente (dos seus pensamentos) durante o decorrer desse tempo, os sintomas desaparecem. 
Uma técnica interessante e muito eficaz, por mais simples que pareça, é, no momento que você perceber que seus pensamentos estão sendo conduzidos para essa espiral desesperadora, corra até a geladeira, pegue duas pedras de gelo e aperte uma em cada mão. Segure apertando até não conseguir mais... nem vai precisar muito tempo...
 
Você vai perceber que seu cérebro vai enviar mensagem de urgência a sua consciência, no sentido de cuidar daquela demanda (o gelo vai causar um crescente desconforto, no contato continuado com sua pele). Os pensamentos circulares que causavam ansiedade vão perder prioridade e você vai conseguir readquirir o controle sobre seu corpo. É tão simples,  que nem parece possível. Mas, funciona.

Depois, procure falar sobre isso, de preferência com alguém que tenha experiência e capacitação na área. Não use amigos, medicamentos, soluções mágicas, milagres, ou drogas alucinógenas, para cuidar de algo que exige muito mais que isso. Não resolve!!! 

Quanto à cura, é mais importante saber o que está acontecendo, do que buscar desesperadamente uma cura, sem nem saber o que se quer curar. Nós precisamos dar nome às nossas angústias, buscar conhecê-las e assim, aprender a lidar com elas e evitar que elas nos causem ansiedade além do que suportamos. Um pouco de ansiedade, sempre vai haver. Faz parte da vida.

 
Weverton Duarte Araújo

Analise leiga x formação adequada

Há uma discussão eterna no meio psicanalítico, no que se refere à formação do sujeito que se propõe atuar como Psicanalista. Desde os primórdios, o próprio Sigmund Freud, médico vienense responsável pelo surgimento desse campo de estudo, já enfrentou tais questionamentos; muitos médicos, como ainda ocorre com outros campos de atuação terapêutica, já mesmo naquele tempo, acreditavam que a nova abordagem deveria se submeter à ciência médica.

Atualmente, restringindo-nos à realidade brasileira, as diversas grades de formação em Psicologia, quando muito, destinam uma ou duas disciplinas a uma leve aproximação com a Psicanálise, o que pode ser justificado pelo necessário foco nas muitas abordagens psicológicas necessárias a uma boa formação. Ainda assim, há quem defenda que a Psicanálise só possa ser exercida por Psicólogos, não obstante o já citado exíguo conteúdo da matéria estudado por tais profissionais.

Durante anos a fio, a formação em Psicanálise se deu de forma bastante diversificada, em instituições historicamente envolvidas com as origens da Psicanálise, como os grupos regionais filiados ao CBP (Círculo Brasileiro de Psicanálise), ao Fórum do Campo Lacaniano e à EBP (Escola Brasileira de Psicanálise). Essas três instituições figuram como as que, tradicionalmente, difundem no Brasil, a transmissão da Psicanálise de forma bem parecida, variando principalmente, em relação ao referencial teórico secundário (além de Freud), ou seja: Lacan, Klein, Winnicott, Ferenczi, entre outros.

Entretanto, há um sem fim de entidades autoproclamadas psicanalíticas, mas que divergem, algumas pouco e outras extremamente, do que classicamente se entende por Psicanálise. Mas isso não é exclusividade da Psicanálise, visto que podemos observar o mesmo fenômeno em outras atividades e profissões. Neste nosso Brasil, de uma cultura originada nos hábitos do pior tipo de gente que havia em Portugal, não se pode esperar rigidez ética exacerbada. Assim, frequentemente, nos vemos às voltas com "picaretas" se propondo presidentes de "conselhos brasileiros de psicanálise" e congêneres.

Temos também, pequenas "escolas de psicanálise" ligadas a denominações religiosas, formações em psicanálise pela Internet, oferta de “doutorado” em psicanálise à distância sem exigência de formação superior, e por aí vai…

Na contramão do que defende grande parte dos psicanalistas e suas entidades, uma conhecida instituição de formação superior à distância, passou a oferecer a primeira graduação em psicanálise, em nível de bacharelado, totalmente EAD, com início em 2022. A grade curricular é muito aquém da formação básica oferecida pelas entidades filiadas ao CBP, por exemplo. De qualquer forma, o bacharelado não se propõe como suficiente para a formação de um Psicanalista, mas de um bacharel em Psicanálise. São coisas distintas, é bom que se lembre.

E quanto a nós, o que pensamos?

Ora, se Freud já enxergava a possibilidade de a Psicanálise ser exercida por não médicos, não parece haver coerência em se propor a exclusividade de tal exercício por este ou aquele profissional. O tripé que sustenta a ética do exercício do ofício do Psicanalista: (formação continuada/análise pessoal/supervisão), se devidamente observado, trás a essência do que propunha Freud e seus sucessores mais respeitados.

Ética, parece ser o conceito que mais pesa na formação do Psicanalista. Pensar filosoficamente e fomentar uma visão dialética dos processos mentais individuais e das relações interpessoais e de grupos, essa deve ser a direção para a qual ele olha. Não há então, que se falar em leigo, termo que neste caso, era aplicado a quem não tivesse formação em medicina e que Freud desbanca em 1927.

Parece óbvio que uma formação superior é altamente desejável, já que se espera que o estudante graduado tenha absorvido conteúdo que o afaste minimamente do senso comum e ainda que também minimamente, acrescente conhecimentos que lhe permitam dialogar com a diversidade cultural e se abrir ao controverso e complexo discurso da Psicanálise.

 

Weverton Duarte Araújo

Totem e tabu: psicanalítico ou antropológico?


Totem e tabu

O texto abaixo é o resumo de uma aula ministrada no NEP (Núcleo de Estudos Psicanalíticos) em Rondonópolis-MT. Resolvi publicá-lo a fim de documentar o fato intrigante (discutido com a turma) de que houve discordância entre estudiosos do tema, em relação ao enfoque do texto. Enquanto um o entendeu como um texto de cunho antropológico, o outro conseguiu perceber o quão psicanalítica foi a intenção de Freud na obra. Compartilho o resumo e convido os interessados no assunto a pensar a respeito.

A quem Freud dirigiu a intenção dos quatro ensaios que compõem Totem e Tabu? Qual seu objetivo ao escrevê-los?
Segundo adverte o próprio autor no prefácio à primeira edição, embora “visem a despertar o interesse de um círculo amplo de leitores instruídos, na realidade, não podem ser compreendidos e apreciados exceto por aqueles que já não sejam alheios à natureza essencial da psicanálise”.
Ora, ele espera que suas reflexões possam aproximar dos psicanalistas, estudiosos de antropologia social, filologia e folclore. E mais, ele aponta a deficiência da falta de diálogo entre tais estudiosos, cujos olhares direcionados para os próprios conhecimentos dificultam a percepção de aspectos que ao outro podem parecer de fácil absorção.
Ou seja, tanto faltava aos antropólogos e filólogos, conhecimentos da “nova ciência” quanto aos psicanalistas, compreensão adequada de aspectos amplamente dominados por aqueles outros.
Uns, por não se abrirem ao novo, outros, por não se permitirem olhar para trás, assim como ainda acontece atualmente, atravancam o progresso da ciência em defesa de suas posições.
Ainda no prefácio à primeira edição Freud justifica a desproporcionalidade do enfoque dado aos dois temas na obra. E esclarece que o motivo se dá em razão do fato de que os tabus ainda são encontrados em nossa sociedade, ao passo que o totemismo já não pode ser observado na prática, nem mesmo seus vestígios palpáveis.
Já há mais de 100 anos, o que se tinha de sociedades nas quais se podia observar alguma influência de sistemas totêmicos, se restringia a alguns poucos grupos de povos australianos e africanos.

O horror ao incesto


O primeiro ensaio, intitulado “o horror ao incesto”, faz uma viagem antropológica por relatos de estudiosos da época, especialmente James George Frazer (1854-1941), de cujos textos extrai grande parte dos relatos apresentados, com a finalidade de demonstrar a existência de uma inexplicada evitação por parte desses grupos de povos, à mera possibilidade de exposição a situações que pudessem dar lugar a uma relação incestuosa.
Tais evitações eram reguladas através de diversos recursos criados sistematicamente, com a finalidade clara de inviabilizar as relações sexuais entre parentes próximos. Assim, evitava-se nesses grupos, pelo que observou Frazer e seus contemporâneos, permitir que um homem e uma mulher, não só os ligados por vínculos sanguíneos, mas também pelos vínculos totêmicos, permanecessem em situações nas quais pudessem dar vazão a seus eventuais desejos sexuais. Pai e filha, mãe e filho, irmão e irmã, genro e sogra e por aí adiante.
Mas, os fragmentos apresentados por Freud para ilustrar sua afirmação da existência de costumes não regidos por uma moralidade sexual parecida com a que conhecem os povos civilizados de então, não apresentam os motivos para o estabelecimento de tais costumes, de modo que permanece a dúvida sobre os motivos do estabelecimento desses sistemas.
Observa-se uma postura preconceituosa de Freud, quando afirma que “... esses selvagens são ainda mais sensíveis à questão do que nós. Estão provavelmente mais sujeitos à tentação de cometê-lo e, por essa razão, necessitam de maior proteção...“ (pag. 28). Convenhamos, falta cientificidade ao argumento. Por que motivo um grupo seria mais susceptível à tentação ao incesto que outro grupo? Por serem menos “civilizados”?
Somente nos últimos parágrafos do texto é que Freud faz alusão direta aos conceitos psicanalíticos e os relaciona ao texto até então construído. Sua afirmação mais forte é de que na neurose o indivíduo assume uma posição infantilizada, regredindo à tendência natural da infância, dominada por desejos incestuosos (pág. 35). Essa relação seria, pois, o complexo nuclear das neuroses, conforme propõe Freud também nos “Três ensaios sobre a sexualidade” (Vol. VII).


Tabu


De modo geral, os tabus são restrições impostas por regras morais dentro de uma sociedade, na tentativa de preservar o grupo de práticas consideradas prejudiciais a seus membros. Essas práticas, em sua maioria, estão ligadas a valores morais e religiosos.
Os tabus são interdições não só à prática de determinados atos, cujos resultados poderiam abalar as estruturas da sociedade, mas também à mera pronúncia de certas palavras ou nomes, o que poderia atrair má sorte ou a ira de divindades.
Os grandes tabus de todos os tempos, frequentemente estão relacionados à sexualidade, ou ao relacionamento dos homens com os deuses. Não raro, os dois aspectos podem ser observados concomitantemente.

Muito mais falamos e discutimos. Muito aprendemos e compreendemos. Mas fica a dúvida: Deve Totem e Tabu ser classificado como um texto psicanalítico ou antropológico?

As formações do Inconsciente

Formações do Inconsciente


Weverton Duarte Araújo

Em primeiro lugar, embora seja assunto de menor relevância, não deve ser de todo inútil propor para a disciplina um novo rótulo, a saber, Produções do Inconsciente, já que o que temos nos sonhos, nos chistes, atos falhos e sintomas, são na verdade, produtos do Inconsciente, na tentativa de trazer seu conteúdo à tona.
Tal mudança provavelmente evitaria até algumas dúvidas dos estudantes, que, como foi relatado em sala de aula por alguns colegas, não pareceu claro se a proposta era estudar os fenômenos que formam o inconsciente, ou os fenômenos por ele formados. Fato é que a palavra formações causou certa confusão no princípio.

Ultrapassada essa barreira inicial, sabemos agora que a proposta é conhecer e estudar os fenômenos que a Psicanálise postula serem formados no Inconsciente com a finalidade de funcionar como substituto do material antes retido pelo efeito do recalcamento, material este, que por suas características, não é permitido de se apresentar livremente à mente em estado de vigília, o que demanda o surgimento desses fenômenos como forma de facilitar a aceitação de tal conteúdo pela consciência.
Buscaremos aqui, não mais que um breve exercício de conceituação desses fenômenos, considerada a insipiente condição do apresentador, posto que incipiente no estudo do tema.

Baseado principalmente no texto freudiano e em anotações de estudos do pesquisador, este trabalho se propõe a expor um resumo do conteúdo estudado, no que diz respeito ao funcionamento do Inconsciente e suas manifestações na consciência. Cada tópico apresentará uma síntese do que se discutiu sobre Inconsciente, sonhos, chistes, atos falhos e sintomas, a partir da perspectiva do conhecimento acumulado.
 
O Inconsciente

O Inconsciente, segundo Freud, pode ser entendido como um espaço não acessível ao estado de vigília ou a percepção consciente do indivíduo, mas, que comporta um infindável número de ideias (emoções, sentimentos e percepções), que seriam insuportáveis à consciência em sua forma original, ou seja, sem um anteparo eufemizante, que as torne menos impactantes, menos desagradáveis.
Freud chega a dizer que "todo ato psíquico começa no Inconsciente e pode permanecer assim, ou evoluir para a consciência, conforme encontre ou não resistência" (Vol. XII, p. 283).
Ou seja, diremos do Inconsciente, que é um lugar dentro de nosso psiquismo, onde são aprisionados certos conteúdos que em algum momento se mostraram conflitantes com nossos conceitos éticos e morais, e que, na verdade, são os conteúdos originários dos estados mais naturais e menos socializados da pessoa.
Do ato psíquico, diremos que é o trabalho executado pelo Inconsciente, ao tentar conduzir à consciência algum conteúdo nele represado. Essa repressão ocorre quando o ego do indivíduo é ainda imaturo, incapaz de administrar o conflito imanente na ideia que lhe é apresentada.
Ao descrever os fatores precipitantes das neuroses Freud aponta a "importância do papel desempenhado pela limitação imposta pela civilização ao campo das satisfações acessíveis" (Vol XII, p. 249). Podemos concluir que essa limitação representa a força capaz de excluir certas ideias do campo da consciência.
As forças repressoras que mantém uma ideia recalcada, ou seja, recolhida ao Inconsciente, são constantemente testadas por certos mecanismos criados pelo Inconsciente para que a ideia se torne palpável, acessível à consciência. Isso porque tais ideias são originárias de pulsões vitais ou, de grande relevância para o indivíduo, embora sejam de alguma forma, percebidas como reprováveis pela consciência, já que esta é moldada por conceitos adquiridos a partir da necessidade de socialização.
No Inconsciente as idéias e sentimentos rechaçados pela consciência sofrem alterações e são, por meio dos processos que convencionamos chamar formações do Inconsciente, ou seja, dos sonhos, chistes, atos falhos e sintomas, novamente expostos à consciência, agora revestidos de disfarces ou deformações, permitindo assim a vazão da ideia inicialmente retida, diante da sua forma que explicitava o conflito moral.

Os sonhos

Primeira das formações do Inconsciente a ser detidamente estudada por Freud, os sonhos são por ele tratados de forma bastante peculiar, já que comumente eram apresentados por seus pacientes, junto ao relato de sintomas, apontando para uma fonte de esclarecimento das questões envolvendo as neuroses, foco de seus estudos.

São pacificamente entendidos como guardiães do sono, já que, até certa medida, conseguem manter a pessoa naquele estado, indiscutivelmente necessário e salutar.
Mas, a atividade mental assume no sono uma forma específica, a qual permite que os pensamentos oníricos reconstruam fantasias e desejos reprimidos de forma menos sujeita à rejeição pela consciência.
Os sonhos podem ser originados a partir de diversas influências internas ou externas ao psiquismo, como:

  • a continuidade da busca de realização de desejos (Vol. IV, pp. 158-167), como pode ocorrer nos casos em que o sonho parece procurar suprir uma necessidade ou demanda física;
  • fragmentos de experiências da infância (Vol. IV, p. 53), uma vez que muito dos conteúdos dos sonhos são completamente estranhos à vida atual do que os experimenta;
  • fragmentos de experiências vividas no dia anterior (Vol. IV, p. 205), já que a atividade mental não cessa;
  • devaneios inconscientes (Vol. XVI, p. 374), diante do afrouxamento das forças mantenedoras da repressão durante o estado do sono.

Concluímos assim, que os sonhos podem servir como válvula de escape para as preocupações cotidianas, e ainda, como agentes de revelação de ideias inconscientes, são atos psíquicos inteiramente válidos, a despeito de sua forma, que na maioria das vezes corrompe as regras do raciocínio lógico.
Os sonhos, enfim, não podem ser tratados como vazios de significação, já que “não permitimos que nosso sono seja perturbado por tolices” (Vol. IV, p. 213).

Os atos falhos

Vez por outra nos encontramos em situação embaraçosa, causada por alguma fala que nos escapa inadvertidamente. O mesmo se pode manifestar em palavras, ou grupos de palavras, não só faladas, mas também escritas, sentidas, ou pensadas. Ações equivocadas ou não esperadas também podem ter fator de causalidade comum.
Em princípio, tendemos a acreditar que tais ocorrências sejam fruto do cansaço, ou mera desatenção, mas, estudos de Freud e outros trouxeram-nos o conhecimento da possibilidade de que esses “descuidos” na verdade sejam manifestações do Inconsciente, desejoso de trazer algum conteúdo à tona.
Os atos falhos são carregados de sentido e sempre dizem algo do Inconsciente. Eles se baseiam e comumente se revelam no esquecimento de uma palavra e a substituição desta por uma outra, que por sua vez, sinaliza para algum ponto no qual o indivíduo mantém seu psiquismo aprisionado, causando angústia tal, que move o Inconsciente a buscar oportunidades em que possa encontrar saídas para que  seus conteúdos traumáticos sejam expostos ao nível da consciência.
São, por assim dizer, alertas enviados pelo Inconsciente, aproveitando oportunidades surgidas nas vivências cotidianas. Mas, mesmo esses alertas são feitos de forma distorcida, em uma linguagem indireta, como costuma falar o Inconsciente dos neuróticos.
É necessário que haja um trabalho de elaboração por parte do indivíduo para atingir a capacidade de traduzir tais mensagens, de modo que elas se tornem produtivas.
Diante da angústia da castração, do conflito sempre presente, o ser humano só tem duas saídas: o ato ou a linguagem. Em determinado momento, a boca não consegue reter aquilo de que está cheio o coração. É aí que o Inconsciente age.
Freud relaciona uma série de atos falhos, dividindo seu estudo em grupos como esquecimentos, lembranças, lapsos da fala, lapsos de escrita, lapsos de leitura, equívocos na ação, erros de memória, entre outros.


Os chistes

Os chistes são uma forma de reação do indivíduo a determinadas situações, pelo uso do cômico, ou, pela verdadeira arte de que são dotadas algumas pessoas, já que nem todos são capazes de construí-los (Vol. VIII, p.135), de trazer, pela via do contraste, da espirituosidade, do “non sense”, de forma inesperada e improvável, uma fala que revele o intuito do Inconsciente, de burlar as forças mantenedoras do recalque, assim como no ato falho, traindo o desejo encobridor do falante, ou por fazer parecer que isso ocorre, dar o tom picante, capaz de gerar o riso no interlocutor.
Diferentemente do ato falho, dos sonhos e dos sintomas, que podem ser vivenciados pela pessoa isoladamente, ou sem que outros o percebam, ou participem diretamente de sua manifestação, o chiste tem um aspecto de fenômeno social, ou seja, requer a presença de terceiros para produzir seu efeito.
A brevidade e a economia são características marcantes do chiste, que utiliza mecanismos peculiares ao funcionamento do Inconsciente, como condensação e deslocamento, reunindo em poucas palavras ideias diversas, mas, que de alguma forma sejam explicitadas pelo contraste, pelo escandaloso, pelo ridículo.
Freud se baseia em Richter e Fischer para afirmar que o chiste "é um juízo que produz contraste cômico" e que é a "habilidade de fundir, com surpreendente rapidez, várias ideias, de fato diversas umas das outras tanto em seu conteúdo, como no nexo com aquilo a que pertencem" (Vol.VIII, p. 19).
Aqui parece que o Inconsciente age de forma oportunista, aproveitando uma circunstância propiciada por uma lacuna no recurso linguístico disponível, para ali inserir, ainda que obscurecido pelo desconcerto inicial provocado pelo chiste, algum conteúdo reprimido.

Os sintomas

Consideremos as estruturas clínicas e o fato de que o retorno do conteúdo recalcado gera as formações do Inconsciente. As formações que retornam no psicótico sob a forma de alucinações não podem ser consideradas sintomas, posto que estes são substitutivos do recalcado e essa condição não se aplica à estrutura psicótica.
Os sintomas neuróticos são resultados de um conflito, o qual surge em virtude de um novo método de satisfazer a libido (Freud, Conferência XXIII). Isso equivale a dizermos que o sintoma é um trabalho do Inconsciente no sentido de negociar a substituição da manifestação de uma comunicação à consciência, impedida pelo efeito do recalcamento.
Tal substituição se dá por outra forma de manifestação, em uma linguagem mais parecida com aquela que seria usada pelo indivíduo no período em que poderia trazer tal informação à consciência sem impedimento.
Esse seria um período de sua existência quando não havia ainda o conhecimento de certas limitações, aquelas impostas pela necessidade de socialização. Daí o fato de alguns sintomas poderem ser tomados pelo observador externo, como atitude de certo modo “infantil”, ou seja, incompatível com a maturidade de seu portador.
"As condições para a formação dos sintomas encontram-se em todas as pessoas e não só nas que os desenvolvem". Desse modo Freud afirma que todos somos neuróticos, embora alguns mais resistentes aos efeitos da exposição às circunstâncias capazes de desencadear a neurose patológica.
Entendamos então, por neurose patológica, aquela cujos sintomas passam a interferir na capacidade do sujeito, impedindo-o de se relacionar e de executar as atividades do dia-a-dia.
"A construção de um sintoma é o substituto de alguma coisa que não aconteceu" (Freud, Conferência XVIII). A partir desta afirmação, podemos inferir que o que não aconteceu foi barrado pela censura e lançado aos domínios do Inconsciente. Então o sintoma é mais um recurso do Inconsciente em busca da realização de um desejo.

Eis portanto, exposto em resumo focado na objetividade, o que se convencionou chamar, no meio psicanalítico, Formações do Inconsciente.

Repetir sim, mas sempre algo novo.


Parei de assistir aos noticiários de TV. Sério mesmo. Percebi que as informações que se veiculam na mídia são tão repetidas que chegam a ser cansativas. Eu tinha o hábito de assistir a vários canais da rede aberta, um após o outro, em busca de alguma novidade, mas, sempre me decepcionava. 
Na verdade, se optarmos por assistir os noticiários da TV uma vez por semana, será mais que suficiente para nos mantermos informados e mesmo assim, correremos o risco de ouvir alguma ou muita repetição.

Isso parece desastroso, mas não passa da confirmação de uma elaboração teórica filosófica e também psicanalítica, que gira sobre o conceito da repetição.

Ora, disseram os mestres sobre a repetição, (Wiederholung) que esta é inevitável, já que o aparelho psíquico vai sempre e outra vez, buscar reproduzir a experiência de satisfação, por meio da descarga das pulsões e excitações diversas. Para isso, conforme já propunha Freud no "Projeto para uma psicologia científica", vai buscar percorrer os trilhamentos desenhados pelos "neurônios", em direção à descarga motora.
O caminho vai parecer ser o mesmo, embora sempre produzirá novo resultado. A experiência de satisfação tão buscada, jamais é encontrada, o que promove outra e outra tentativa, as quais se dão, em princípio, pelos mesmos caminhos, ou por tentativas repetidas de se aproximar daquilo que em algum momento causou algum tipo de satisfação.

O conceito de repetição formulado por Lacan, ao tratar da causalidade, toma de Aristóteles o termo “automaton” como essa característica de inexorabilidade que nos impele a repetir e repetir, mesmo que produzindo novidades, em cada papel que desempenhamos, em cada lugar que ocupamos ao longo da vida, como lembra Roudinesco em seu dicionário de psicanálise.
Observemos que o próprio Aristóteles diz em sua “Auscultação da Natureza”, que as coisas têm causas diversas, ou que a causalidade pode ser apreciada em suas diversas características. 
Parei de assistir os noticiários de TV, mas não posso parar de buscar me manter informado. Não pretendo parar de repetir. Só quero algo novo, que me seja estimulante e não enfadonho como ouvir a mesma notícia em vários canais por uma semana inteira. Se não há como não repetir, que algo novo surja em cada repetição.

Grupos de indivíduos e mútuas influências

Grupos de indivíduos

Weverton Duarte Araújo

Por que nos agrupamos, formamos famílias, turmas, clubes, sociedades? De Freud podemos auferir a ideia de que somos todos vítimas do narcisismo, que em princípio nos leva a odiar o outro, posto que esse outro é marcantemente diferente de nós e está lá, a nos apontar sempre essa diferença como ameaça ao que julgamos mais belo, mais perfeito, ou seja, nós mesmos.
A motivação para nos unirmos a outros humanos, de modo a permitir o surgimento de um grupo, é tratada no Cap. VI do escrito “Psicologia de Grupo e a análise do Ego”, onde Freud evoca Schopenhauer e sua célebre história dos porcos-espinhos, que por necessidade de calor se aproximam uns dos outros a ponto de se ferirem mutuamente, mas se afastam e se aproximam novamente até encontrarem o ponto de equilíbrio, onde se aquecem mutuamente sem se ferirem.
Daí a noção de que também nós, humanos, só refreamos o nosso narcisismo em função de uma necessidade tão importante quanto a que ele protege, ou seja, a preservação da vida. A única barreira do amor por si mesmo seria pois, o amor pelo outro, ou amor objetal.
Há que se pensar seriamente então, a respeito do conceito de amor, já que a relação de sujeito e objeto frequentemente associada a ele, pode não ser exatamente adequada ao que habita o ideário popular como conceito de amor. Nos agrupamos por afinidade, por apego (amor) ao que o outro pode nos oferecer para suprir nossos desejos e necessidades. Assim, como os porcos-espinhos, tanto damos quanto recebemos ao fazermos parte de um grupo, onde aprendemos a suportar os espinhos pontiagudos do narcisismo de nossos semelhantes para não morrermos do frio da solidão.
O casamento e o consequente agrupamento familiar, com suas inúmeras formatações observadas atualmente, talvez seja a forma mais comum e frequente de as pessoas se agruparem. É fácil entender os motivos dessa tendência, que se pode justificar primeiramente pela necessidade de preservação da espécie, não obstante esse aspecto pareça ter perdido a primazia em favor de outros, de cunho social e econômico, uma vez que a família, como "célula mater" da sociedade, agindo como  multiplicadora de ideologias  políticas e religiosas, possibilita assim a perpetuação, não apenas de pessoas, mas de Estados e dinastias.
Quanto às outras modalidades de agrupamentos de pessoas, é certo que cada uma visa a atender também uma necessidade humana. Assim sendo, poderíamos dizer que os grupos são uma maneira de realização coletiva dos desejos individuais. Mais que isso, também a realização em cada indivíduo, dos desejos e expectativas de uma coletividade.
Engels (2006) propõe um processo evolutivo na organização dos grupos familiares, situando-os em três estágios: estado selvagem, barbárie e civilização, nos quais predominavam, respectivamente, os casamentos por grupos, a família pré-monogâmica e a monogamia.
E acerca da monogamia como suposto resultado de evolução onde o amor sexual individual sobrepujasse a conveniência dos outros modelos de agrupamentos de pessoas, Engels discorda, destacando o fato de que essa teria sido “a primeira forma de família que não se baseava em condições naturais, mas em condições econômicas”. Para ele, a monogamia surgiu da concentração de grandes riquezas nas mãos de homens (indivíduos do sexo masculino), que desejaram passar essas riquezas como herança aos filhos, o que não era possível nos modelos anteriores de agrupamentos familiares, organizados que eram em torno das mulheres, a partir das quais se orientavam as regras da hereditariedade.
Um aspecto que chama a atenção daquele que se ocupa em observar um grupo, certamente é o caráter provisório do estado mental de seus membros, que retornam a um estado diferente assim que deixam de estar compondo um grupo, mas, agindo como indivíduos isolados. Os indivíduos se perdem nos grupos, como se a fusão das diversas personalidades causasse um efeito hipnótico, capaz de trazer a tona as características comuns a todos os membros do grupo, que por isso mesmo não assustaria os demais.
Os caracteres individuais se desvanecem e dão lugar ao que há de mais naturalmente humano e menos civilizado em cada um. A união dessas manifestações caracteriza a força do grupo, a capacidade de execução de ações que ao indivíduo isoladamente seria impensável, consideradas as limitações impostas pela ação do superego ou do próprio ego, racionais e carentes que são da aceitação do outro.
Por meio da supressão da repressão imposta pela civilização, já que no grupo o anonimato protege o indivíduo, todos agem e ninguém é responsabilizado individualmente. É possível que boa parte dos indivíduos de um grupo, se questionados acerca da responsabilidade individual pelas ações coletivas de seu grupo, não se sinta individualmente responsável.
De alguma forma, o EU civilizado desaparece, uma vez que o OUTRO que delimita o alcance e a intensidade de suas ações também desapareceu, tornando-se um anônimo como ele mesmo. Daí podermos afirmar que o grupo remete o indivíduo a sua condição anterior à civilização, quando havia a supremacia da pulsão em detrimento do efeito civilizatório da repressão.
No capítulo IV de “Psicologia de grupo e análise do ego” de Freud, aprendemos que a influência do grupo sobre o indivíduo pode alterar profundamente sua atividade mental, reduzindo-lhe a capacidade intelectual ao nível médio dos componentes do grupo, para que possa haver um certo grau de homogeneidade nas ações e no discurso de seus membros.

O “normal” e o patológico


O indivíduo se relaciona com o grupo de tal forma, que podemos supor a ocorrência de uma identificação imaginária, ou seja, uma situação tal, em que o indivíduo se vê representado pelo grupo enquanto está nele, como se o grupo fosse capaz de fazer emergir e dar evidência a uma imagem que o indivíduo tem de si mesmo e não consegue manifestar  enquanto indivíduo isolado.
Trata-se de uma identificação especular narcísica que a civilização eficazmente inibe pela ação da repressão social, vencida pela força da sensação de anonimato do grupo, que permite um certo grau de transgressão.
Podemos assim, afirmar que o pertencimento a um grupo possibilita ao indivíduo alguma espécie de emancipação, já que uma dose de narcisismo não seja exatamente abominável, mas, pelo contrário, até mesmo necessária.
Essa identificação é também de certa forma uma identificação histérica, uma vez que o indivíduo assimila determinados traços do grupo, que não são traços seus, necessariamente. Uma identificação ao desejo do outro, cuja satisfação é alcançada por intermédio da manifestação de traços que o indivíduo toma por empréstimo ao grupo, mas os confunde como seus, manifestando um estado patológico. Por mais que seja legítimo o empréstimo desses traços, já que o indivíduo pertence ao grupo, o equívoco se encontra na confusão entre o que é do grupo e o que é do indivíduo.
O aspecto negativo mais evidente da influência da mente grupal nas ações do indivíduo pode ser observado nos abusos cometidos pelos grupos de manifestantes, “black blocs” e outros do mesmo gênero, que surgiram recentemente, em meio às manifestações que se multiplicaram pelo Brasil, a partir de meados de junho de 2013 e culminaram em fevereiro de 2014, com a morte do cinegrafista Santiago Andrade, atingido na cabeça por um artefato explosivo lançado por um anônimo que, muito provavelmente não o faria se tivesse o rosto descoberto e não estivesse influenciado pelo desejo, pelas emoções e pelo efeito da sugestão a que podem se submeter os membros de um grupo.
Pessoas que, estivessem sozinhas, dificilmente praticariam atos de violência e desrespeito às leis, agem de forma exatamente oposta quando reunidas em grupos, abandonando o sentimento de responsabilidade que sempre controla os indivíduos, como afirma Freud, ao citar Gustave Le Bon em sua descrição da mente grupal.


Conclusão

  
O indivíduo se perde no grupo. O Eu desaparece e o Inconsciente se expõe e se impõe. É como se todos fossem perversos ou psicóticos, livres das limitações neuróticas, surtados pelo efeito do agrupamento e do anonimato, quando então a lei do pai (a castração, a repressão) é ignorada, rejeitada ou mesmo afrontada, dando espaço aos desejos naturais do indivíduo mais contidos pelo efeito repressivo da civilização.
A mente grupal que invade os indivíduos enquanto membros dos grupos é um vácuo na civilização, uma possibilidade de “não eu”, de transcendência, de negação da ascese imposta pela civilização.
 Não tratamos aqui, como se viu, dos aspectos positivos e benéficos da exposição do indivíduo à influência dos grupos, embora creiamos existam, obviamente, e tanto podem trazer benefícios quanto malefícios ao indivíduo, assim como à sociedade, uma vez que abalam as estruturas de um e de outro.

 

Referências bibliográficas:

ENGELS Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. São Paulo: Escala. 2006.

FREUD Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud.Rio de Janeiro: Imago, 1996.(Vol. XVIII).