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Os livros da lei.

Desde sempre o homem se pergunta sobre suas origens, sobre sua identidade e sobre seu futuro. As religiões tentam apaziguar a tais questionamentos, dando aos menos inquietos, certo grau de satisfação com suas respostas, nem sempre razoáveis, posto que, invariavelmente, a fé é o requisito básico para a sua compreensão.
A primeira grande pergunta da Humanidade, “de onde venho?”, encontra certo equilíbrio entre as respostas da maioria das religiões.
Diversas teogonias, ou seja, propostas de sistematização da historia da origem divina de um grupo humano, com seus panteões de deuses, mitos e odisséias, habitaram e habitam a mente dos povos desde os mais imemoráveis tempos.
Chamamos de teodicéia uma tentativa de explicar, por exemplo, a existência do mal dentro dos sistemas teológicos, quando estes afirmam que Deus é todo-poderoso, todo-amoroso e justo. Em outras palavras, o “teodicista” é responsável pela defesa de uma teologia, diante de suas eventuais aparentes contradições, criando uma resposta para os problemas de consistência lógica, frequentemente apontados pelos seus opositores.
As teologias são proposições humanas, no sentido de tentar sistematizar as diversas formas pelas quais o homem explica, ou tenta explicar sua relação com a divindade. Embora seja questionável, grande parte dos teólogos alega receber das próprias divindades a elucidação que propõem, enquanto outros se entregam à sistematização daquilo que já se estabeleceu como verdade na crença popular.
Os diversos pontos de vista apontados são, em sua maioria, divagações sobre um mesmo tópico, como por exemplo, a divindade de Jesus Cristo, as formas de manifestação do Espírito Santo, a autoridade de um determinado profeta ou de uma religião sobre as outras e assim por diante.
Cada teologia surge por força de embates doutrinários, questões sociais, ou outras particularidades da cultura e da época em que surge. Na verdade, cada teologia é mais uma tentativa de contextualizar e atualizar as noções já conhecidas sobre Deus e seus desígnios. Há propostas complexas e bem elaboradas, entre outras muito simples e objetivas.
O cristianismo propõe o surgimento do Universo e de todas as coisas a partir do nada, por uma manifestação da vontade soberana de um ser supremo, invisível, inacessível e inexplicável. Para sua própria glória, a tudo cria e espontaneamente se revela a determinada parte da humanidade, elegendo segundo sua vontade seus representantes no planeta, aos quais se dirige, ensina, protege e castiga, conforme as circunstâncias. Tal ser não tem um nome, ou tem um nome tão sagrado, que é chamado apenas de Deus ou “Senhor” e é entendido como o único de sua espécie, embora subsista em três pessoas distintas, a saber, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, os quais se relacionam harmoniosamente entre si e com o ser humano, cada um a sua maneira e com seus objetivos distintos.
Não podemos deixar de considerar outras manifestações religiosas que se distanciam do ponto de vista do cristianismo, como por exemplo, a Umbanda, que tem suas raízes nas tradições africanas, mas é tida como uma religião tipicamente brasileira.

Independente da origem, cada grupo religioso tem seus ritos, responsáveis pela manutenção dos respectivos mitos, sem os quais, nenhuma religião subsiste. Assim, enquanto sistemas religiosos como a Umbanda e o Candomblé, alinhando-se com a maioria das religiões familiares e tribais de origem africana, preservam o hábito de perpetuar seus mitos sem a utilização de um texto escrito, outras tantas se esmeram em produzir verdadeiras bibliotecas para auxiliar na execução desse trabalho.
Entre as grandes religiões monoteístas, sejam elas, o Cristianismo, o Islamismo e o Judaísmo, o “Livro da Lei” pode apresentar características diversas:
  • Pode ser uma compilação de escritos de um único autor, como o Corão dos Muçulmanos, cuja autoria é atribuída ao profeta Mohamed, que o teria recebido por inspiração divina em meados do século VI, embora as 114 “suras” ou capítulos que o compõem, só tenham sido escritos após sua morte;
  • Para os judeus, a Tanak, que reúne em 24 livros A Torah (a Lei, ou o Pentateuco mosaico), os Neviim (livros históricos e proféticos) e os Ketuvim (demais escritos). Este cânone foi estabelecido por volta do ano 100 d.C., por um concílio específico;
  • No cristianismo, uma obra muito mais volumosa que se tornou conhecida como a Bíblia Sagrada, reúne 66 livros, alguns comuns à coletânea judaica, mas, com foco no grupo chamado de Novo Testamento, onde são apresentadas as doutrinas formuladas a partir do pensamento e das ações de Jesus, o Cristo, ou Yeshua, o Messias, que as profecias judaicas anunciavam havia séculos. A compilação dos escritos que compõem a Bíblia foi elaborada entre os anos 314 e 317, no concílio de Nicéia, mas alterada pelo movimento reformista iniciado por Martinho Lutero, de modo que temos atualmente, duas versões básicas, uma das quais é utilizada pelos católicos romanos, segmento mais conservador e fiel ao primeiro cânone, em oposição ao grupo conhecido como protestantes, ou evangélicos, adeptos do texto luterano.
Mesmo internamente, essas duas ramificações ainda se subdividem em várias outras versões. Temos obras que se tornaram ícones, como A Bíblia de Jerusalém, que os editores afirmam ter sido traduzida diretamente dos textos originais hebraicos, aramaicos e gregos; a King James, versão encomendada para tentar corrigir os “excessos calvinistas”, conforme o prefácio do Novo Testamento King James, publicado em 2007 pela Editora Abba Press; ou ainda, as versões baseadas na tradução feita por João Ferreira de Almeida, até chegarmos às modernas BLH- Bíblia na Linguagem de Hoje ou à NVI- Nova Versão Internacional, que utilizam um palavreado mais próximo à língua falada no português do Brasil dos dias atuais.
Isso posto, podemos concluir que não existe harmonia entre as diversas traduções e versões do que se propõe ser o livro da lei dos cristãos, uma vez que os diversos tradutores e adaptadores não poupam acusações mutuas de desvirtuamento da mensagem original ou mais adequada à doutrina cristã, conforme pode-se ler nos artigos postados no site http://solascriptura-tt.org, consultado em 11/09/2011.
Do ponto de vista material, analisada superficialmente, a situação pode parecer desesperadora, pois, os textos nos quais se baseiam as religiões não encontram harmonia em suas tantas versões. Entretanto, uma investigação mais aprofundada dos efeitos que tais textos surtem nos contextos em que são devidamente aplicados, nos mostrará que, pelo contrário, são de muita eficácia e utilidade.
O texto, mesmo antes de escrito, da “Lei hebraica”, foi responsável pelo surgimento, organização e manutenção de uma das culturas mais fortes e resistentes que conhecemos, o povo israelita, que sobrevive a várias outras culturas, sob as quais sofreu séculos de dominação.
O Al Corão, texto relativamente novo, se comparado à Bíblia e outros escritos, traz com seu aspecto altamente normativo, um elevado grau de organização e seriedade e na prática de seus adeptos, um cego respeito aos ditames morais nele contidos, capaz de fazer surgir um novo conceito de religião, o qual forma pessoas com tal nível de envolvimento, que o Islã, a mais nova das grandes religiões monoteístas, já aparece como a segunda maior em número de adeptos no mundo.
A Bíblia cristã, antes acessível somente às castas eclesiais e a um pequeno número de eruditos, se tornou o livro mais conhecido do mundo, primeira das impressões tipográficas dos irmãos Guttemberg. É claro que isso não faz dele, na prática, o livro mais lido, pois, bem o sabemos, é grande a quantidade de pessoas que o possuem, sem nunca o terem sequer aberto, ou que o abrem em um determinado salmo e o expõem como um enfeite ou amuleto num canto da casa. De qualquer modo, não se pode negar que é norma de fé e prática de muitos cristãos, como bem o definem alguns catecismos.
Na Maçonaria, curiosamente, ao contrário do que dizem alguns opositores da Ordem, que certamente nunca entraram em um templo maçônico, o livro da lei tem um lugar de destaque na ritualística, sendo aberto e fechado nos momentos apropriados, ou mantido fechado, conforme o rito, com grande deferência e respeito.
Exposto sobre o altar dos juramentos durante toda a sessão, como base de apoio ao esquadro e ao compasso, serve de orientação moral, devendo ser modelo de conduta a todos os maçons que se reúnem a sua volta. É requisito básico para o funcionamento e uma Loja.

Abuso espiritual. A linguagem como fator de manipulação.



Não causa espanto defender a ideia de que o homem é um ser de linguagem. Essa característica de ser falante, capaz de estruturar sistemas linguísticos é pacificamente entendida como essencialmente humana, já defendia Aristóteles há séculos.
Acontece que essa mesma linguagem, tão utilmente empregada para a comunicação e o desenvolvimento da humanidade, também exerce a função de meio pelo qual os homens se manipulam, se escravizam, se exploram e se abusam. A linguagem conduz a força motriz que rege, que organiza as relações de poder entre os homens.
Uns dominam pela via política, outros pela violência física, pela hierarquização das relações sociais, comerciais, de trabalho. Enfim, sempre que há relação entre seres humanos, pode-se esperar algum tipo de dominação, manipulação e abuso.
Os discursos organizados, como o político, o midiático, o teológico, entre outros, poderiam ser percebidos como alienantes, inibidores da função primordial do sujeito, qual seja, a de protagonizar sua própria condição de indivíduo, mesmo que inserido em um processo civilizatório e massificante?


No caso específico da manipulação e do abuso espiritual (exigência do uso da fé e do exercício equivocado da espiritualidade para a concretização de circunstância que evidencia manipulação e abuso), há um agravante que combina a ganância e a ignorância. Ganância por parte de ambos, abusado e abusador, pois o primeiro acredita na loucura de poder manipular o poder da divindade em seu benefício, como se fosse a divindade um gênio da lâmpada. O segundo, por sua vez, aproveita a ocasião para se beneficiar materialmente ou para se afirmar socialmente às custas da exploração da loucura do primeiro.
Ignorância também por parte de ambos, pois quando assim agem, demonstram desconhecer o sentido da existência humana, o conceito de ética e de moral; demonstram enfim, a condição desumana e desumanizadora de suas existências.
Tornou-se comum, pessoas sem formação adequada, ou seja, sem formação profissional específica nas áreas ligadas ao estudo do comportamento humano, se aventurarem a “dar conselhos” pela TV, usando exemplos de problemas comuns da vida cotidiana para apresentarem suas propostas de solução por atacado, como se isso funcionasse da mesma forma para todos.
Não bastasse a falta de preparo profissional desses “líderes virtuais” de massas, alguns deles apelam para a fé religiosa de sua plateia, criando situações de verdadeira manipulação e abuso espiritual, nas quais as pessoas passam a acreditar na necessidade de seguir as orientações doutrinárias impostas sutilmente em tais programas, como forma de resolver seus problemas. E não unicamente os problemas espirituais, mas, todo e qualquer tipo de problema, desde uma enfermidade simples, ou problemas de relacionamento familiar, à restauração do casamento. As questões financeiras também são tema e costumam receber maior destaque, gerando frequentemente notícias de golpes, extorsões, desvios, manipulação e abuso.
Da mesma forma que pela TV, essas verdadeiras empresas, encabeçadas por figuras carismáticas, de discurso eloquente e aparência próspera, arrastam multidões para seus templos, onde as “ovelhas” são submetidas a uma verdadeira “tosa” de seus bens materiais, além de serem aprisionadas em jogos de manipulação psicológica.
Mas não se pode perder de vista a realidade de que essas vítimas de abuso não foram arrastadas violentamente, nem dopadas ou totalmente enganadas. É fácil perceber que grande parte dessas pessoas busca uma cura milagrosa instantânea, uma solução imediata para seus problemas.
O que move esta investigação, não é mais que tentar demonstrar o quanto estão inculcados nas pessoas os valores da lei do mercado consumista no qual vivemos, a ponto de ofuscar a muitos, impedindo-os de discernir entre o que é regra do mercado capitalista e o que deveria permanecer na esfera do sagrado, do transcendente. Pois se tornou normal e aceitável as pessoas negociarem com a divindade, com prazos, valores e condições bem estabelecidos.
A semelhança com o mercado não para aí, pois, assim como temos que adquirir um bem novo, às vezes antes de acabarmos de pagar o anterior, também os pseudocristãos do Século XXI buscam nos “shoppings da bênção” os produtos importados do mundo espiritual. Buscam e encontram placebos produzidos da manipulação da linguagem, em favor da manutenção da exploração da demanda por curas urgentes para os mais diversos males.
Percebe-se aí a aplicação de recursos de marketing, para a comercialização do impalpável refrigério da alma angustiada dos consumidores, por meio da etérea e não menos subjetiva ação do transcendente.
O futuro dessa ilusão, conforme previu Freud em 1927, já pode ser sentido. A sociedade tem se desmoronado em atos antes impensáveis de violência e degradação. As decepções recrudescem os corações de alguns e outros se tornam como os viciados em drogas, eternos dependentes dos fornecedores de alívio temporário.
O que temos então de prática do discurso teológico? Um discurso carregado de artifícios voltados à manipulação da linguagem, na busca de manter a opressão do indivíduo, a inibição do sujeito, o que propicia sua manutenção na condição de objeto permanente da exploração e do abuso de poder.

Há que se construir alternativa contrária a essa manipulação, em sentido oposto, empoderando o indivíduo, para possibilitar-lhe o direcionamento à condição de sujeito autônomo e consciente, capaz de protagonizar relações humanas mais equilibradas.

A história do monopaternismo - Uma lenda como todas as outras


Quando ou como tudo começou ninguém sabe exatamente, pois não havia a escrita nem os meios de armazenamento de dados que temos hoje. A história foi ganhando contornos fantasísticos, conforme o interesse de cada povo que a contava. Não só os vencedores a escreveram.
Reunimos alguns relatos que sobreviveram aos tempos, manchados é claro, pelas muitas interpretações, pelos desvios, pelas cópias adulteradas, enfim, pelo que há de real, ou seja, a intervenção desmedida e o jogo de interesses na construção das verdades do monopaternismo. Outros filhos tinham vários pais e não se incomodavam com isso. Muitos pais e muitas mães, diferentemente dos monopaternistas, que em momento algum se referem a ter uma mãe. Estranho não?
Pois nos concentremos na história dos principais representantes desse modo de pensar.
Eram três irmãos de idades muito diferentes. Judsem com mais de 60, Cristem com pouco mais de 20 e Islem com 14... Séculos. Os três totalmente certos de que eram filhos do mesmo pai, o qual nunca viram, mas pelo que se sabe através das histórias repetidas pelos antigos, sim, só podia se tratar do mesmo, o pai que os três evocavam, mesmo que cada um atribuísse um nome diferente a essa figura fantástica e tão diferente para cada um dos três, embora tão igual a qualquer expectador livre de envolvimento em qualquer das famílias, se é que exista algum.
Para comprovar a veracidade de suas reivindicações hereditárias, cada um dos filhos se vangloriava de possuir um testamento produzido pelo próprio pai e a eles entregue por um antigo morador de sua terra natal. O problema é que cada um dos três testamentos havia sido escrito em épocas e idiomas diferentes e muitas páginas, era facilmente perceptível, haviam sido inseridas posteriormente, talvez em substituição à original, danificada por alguma intempérie ou acidente (não vamos nós, meros contadores da história, querer imaginar que algo de suspeito haja aí).
Não se podia portanto, confiar plenamente no conteúdo dos testamentos, por mais fidedignos que parecessem. Também não se pode duvidar da boa vontade dos defensores de sua integridade. Afinal, documento é documento. Não se deve brincar com essas coisas. Os descendentes de Islem sempre levaram muito a sério este fato, ficando mortalmente ofendidos se alguém desmerecesse ou zombasse de seu documento. Os filhos de Cristem já não se apegavam tanto a esses papeis, Falavam deles com muito respeito, mas na verdade, nunca os leram completamente. Usavam-nos às vezes para se defenderem de seus dois irmãos, que frequentemente os acusavam de não serem herdeiros legítimos, mas, usurpadores disfarçados de vítima, por trás de uma história sem muito sentido.
Judsem, velho e desgastado pelas muitas lutas na vida, também por ter o hábito de se aliar a pessoas poderosas em busca de apoio na incansável briga pela herança do suposto abastado pai, achava-se agora em descrédito e rodeado de inimigos, principalmente uns vizinhos briguentos, que o acusam de haver invadido suas terras, onde já viviam há muito tempo. Islem tem muitos primos entre esses vizinhos, de modo que sua relação com Judsem é bastante conturbada. Seus filhos sempre se desentendem e partem para a agressão mútua, matando-se uns aos outros e enfraquecendo ambas as famílias.
Cristem não entra nesse clima de agressões físicas dos irmãos, mas tem muitos filhos em várias partes. Esses filhos andarilhos adotaram costumes muito diferentes, ao ponto de não se poder mesmo, pelos seus hábitos, dizer que são de uma mesma família. Na verdade são três os filhos de Cristem, que formaram três grandes grupos em torno de si. Catolex é o mais velho. Tem muitos filhos e filhas e é muito rico. Enriqueceu-se às custas do ouro doado pelos criminosos em troca do direito a um lugar na cidade que está sendo construída para abrigar criminosos arrependidos e que tenham algum ouro para pagar a passagem. Infelizmente não é dado ao diálogo e monopolizou por muito tempo o conhecimento da verdade, chegando a matar quem ousasse discutir assuntos dessa natureza.
Isso abriu espaço para o segundo irmão, Protevan, que aproveitou a caduquice do irmão mais velho e se estabeleceu como representante e portador da palavra do pai. Sua família também cresceu assombrosamente e de forma pouco cautelosa, já que foram eliminados todos os entraves que antes havia para a entrada na família. Então, gente de toda espécie começou a se agregar ao povo de Protevan, de modo que em pouco tempo já não guardavam qualquer semelhança com seus predecessores. Assim como os Catolex do passado, começaram a construir várias cidades para abrigar criminosos e ultimamente estão investindo em planos de saúde para manter em constante tratamento as vítimas de dores em geral, mas principalmente as que não conseguem abrir os olhos.
Muitos deles costumam dizer que só eles e mais ninguém no mundo são os legítimos herdeiros do legado de Cristem, hostilizando frequentemente o irmão mais velho e humilhando com apelidos os filhos do irmão menor, Espirek.
Esses últimos, pura bondade, jamais fazem ou se metem em escândalos, como os complicados filhos de Catolex e Protevan. Pelo contrário, são discretos, embora ultimamente, suas ideias difíceis de entender, estejam sendo bastante divulgadas, já que eles são bons em escrever livros e até filme já fizeram. Vale lembrar que há entre eles uns descendentes da outra banda do mundo, misturados com uns índios e vaqueiros, originários de nossas terras do sul, formando uma casta com princípios comuns aos Espirek, mas que falam um dialeto diferente, muito engraçado, por sinal. Esses gostam de música e dança. São na maioria humildes e desprendidos. Seus costumes são passados de pai para filho e pouco há escrito sobre eles.
Os filhos de Catolex fizeram muitas cópias do testamento de Cristem, mas, com o passar do tempo e com a preguiça do povo, poucos liam os papeis. Antes, inventaram muitas histórias baseadas nas partes mais importantes do testamento, para inculcar nos seus jovens não mais que a essência da bela história de Cristem. De resto era só lendas e superstições.
Os descendentes de Protevan foram mais ousados. Arrancaram muitas páginas do velho manuscrito de seu ancestral Cristem, deixando apenas as partes que lhes interessavam e passaram a espalhar a falsa notícia de que os filhos de Catolex haviam acrescentado páginas ao texto original. Para complicar mais ainda a situação, os filhos de Espirek, bons de escrita, buscaram inspiração e produziram uma terceira versão para o já sem crédito testamento de Cristem.
Veio gente de todos os lados palpitar sobre qual seria a boa e perfeita vontade do verdadeiro autor do verdadeiro testamento. Um tal Smooth, lá das terras do norte, alega ter desenterrado umas placas de ouro contendo o outro testamento de Cristem, bastante diferente dos anteriores. Muita gente anda lendo o que o Sr. Smooth alega ter descoberto, mas é apenas mais uma variação que não muda em essência o que poderia realmente ser o legado de Cristem. Esses são conhecidos como os Nomroms, por que um anjo de nome parecido teria guiado Smooth a encontrar as tais placas.

Em resumo e para encerrar este primeiro capítulo dessa história fantástica, concluímos acrescentando que, mesmo diante de tamanha divergência entre as tantas alegações dos querelantes pela legitimidade de seus testamentos, acreditamos que os jurados e juízes, mesmo cegos e surdos que são, serão capazes de encontrar em seus corações a justa e perfeita sentença.

continua...

A ética pseudo-cristã e o espírito do consumismo no século XXI

Ousei fazer um trocadilho com o título do clássico de Max Weber, a fim mesmo de tentar atingir os brios dos que se dizem cristãos sem ao menos saber as implicações éticas, morais e sociais a que se vê exposto aquele que resolve ostentar tal título.
Acontece que uma grande parcela da sociedade brasileira abraçou nos últimos anos o direito à livre manifestação de culto garantido pela Constituição Federal, muitos levados pelo modismo, outros pela pura ganância mesmo. Uns se tornaram verdadeiros tietes de “cantores gospel” ou de padres, missionários, pastores, bispos e bispas, apóstolos e sei lá mais quantos títulos sob os quais se escondem pessoas de atitudes nada recomendáveis a quem se diz pregador da Palavra de Deus. Outros demonstram, pelo seu discurso e prática, estarem dispostos a fazer o que for preciso para se verem no direito de exigir de Deus a bênção (material na maioria dos casos), pela qual pagam aos autointitulados retromencionados. Não precisamos lembrar as frequentes denúncias de enriquecimento ilícito a eles atribuído.
Mas o que me move aqui, não é mais que demonstrar o quanto estão inculcados nas pessoas os valores da lei do mercado consumista no qual vivemos, a ponto de ofuscar a muitos, impedindo-os de discernir entre o que é regra do mercado capitalista e o que deveria permanecer na esfera do sagrado, do transcendente. Pois se tornou normal e aceitável nas igrejas, as pessoas negociarem com Deus, com prazos, valores e condições bem estabelecidos. Não é mais como antes, quando Deus, por sua vontade estabelecia pactos e ditava as regras. Agora o crente vai a Ele (a seus representantes) com o pedido pronto, estabelece a forma de pagamento e já começa a exigir a entrega.
A semelhança com o mercado não para aí, pois, assim como temos que adquirir um bem novo, às vezes antes de acabarmos de pagar o anterior, também os cristãos do Século XXI buscam nos shoppings da bênção os produtos importados do mundo espiritual. E são produtos de vida útil curta e que atendem a fins muito específicos.
A concorrência entre esses shoppings é tão interessante, que os pontos de instalação são cuidadosamente escolhidos e as lojas ganham nomes sugestivos como Universal, Internacional, Mundial, do reino, da graça, do poder. Tudo muito grandioso e ao mesmo tempo subjetivo, deixando à imaginação do consumidor a formação do sentido.
Outras redes de lojas funcionam como franquias e mudam de nome conforme o público-alvo e o local onde se estabelecem. É sim, a aplicação de recursos de marketing para a comercialização daquilo que, por sua essência incomensurável era para ser doado, a saber, o impalpável refrigério da alma angustiada dos consumidores por meio da etérea e não menos comprovável ação do transcendente, a bênção de Deus..
O futuro dessa ilusão já pode ser sentido. A sociedade tem se desmoronado em atos antes impensáveis de violência e degradação. As decepções recrudescem os corações de alguns e outros se tornam como os viciados em drogas, eternos dependentes dos fornecedores de alívio temporário. A ética dos pseudo-cristãos do Século XXI, no Brasil pelo menos, em nada lembra o proposto no sermão da montanha, que podemos certamente usar como parâmetro da ética do Cristo, modelo desde sempre abandonado pelos cristãos.

Compromisso com o Pacto. Hoje?


       1Reis – 8:1-6

“Então congregou Salomão diante de si em Jerusalém os anciãos de Israel, e todos os cabeças das tribos, os chefes das casas paternas, dentre os filhos de Israel, para fazerem subir da cidade de Davi, que é Sião, a arca do pacto do Senhor.
De maneira que todos os homens de Israel se congregaram ao rei Salomão, na ocasião da festa, no mês de etanim, que é o sétimo mês.
E tendo chegado todos os anciãos de Israel, os sacerdotes alçaram a arca;
e trouxeram para cima a arca do Senhor, e a tenda da revelação, juntamente com todos os utensílios sagrados que havia na tenda; foram os sacerdotes e os levitas que os trouxeram para cima.
E o rei Salomão, e toda a congregação de Israel, que se ajuntara diante dele, estavam diante da arca, imolando ovelhas e bois, os quais não se podiam contar nem numerar, pela sua multidão.
E os sacerdotes introduziram a arca do pacto do Senhor no seu lugar, no oráculo da casa, no lugar santíssimo, debaixo das asas dos querubins.”  [1]

O texto sagrado se refere ao momento máximo da construção do grande Templo de Salomão, quando o rei, herdeiro da promessa de seu pai Davi ao Deus Altíssimo, faz com que a Arca da Aliança, símbolo maior do pacto e da presença de Yahveh em Israel, seja conduzida ao lugar de destaque no templo, o “sancto sanctorum”.
Ali se pode notar o quanto isso foi importante para todo o povo, pois que todos os homens, todos os anciãos, os cabeças das tribos, os chefes das casas paternas, se reuniram ali e apresentaram sacrifícios incontáveis, bem como se dispuseram ao culto e à adoração ao Altíssimo.
Ora, que nos faria pensar tal referência nos dias de hoje, mormente na vida do homem que se reconhece como herdeiro e mordomo da Criação?
Talvez a certeza de que ainda é possível a reunião dos anciãos de hoje, dos homens de boa vontade de hoje, os sábios, os filósofos, para “erguer a arca” da liberdade, da igualdade e da fraternidade, colocando-a no lugar mais destacado do templo-corpo-vida de cada um e de todos, na entrega de sacrifício agradável ao Eterno, não obviamente, de bois ou ovelhas, mas de luta e dedicação por uma humanidade mais justa e perfeita, de entrega da própria vida pela causa na qual alegamos estar envolvidos.

Este momento que vivemos, de crise de conceitos e falta de ideais,  pode ser de fundamental importância na consolidação do caráter daquele que se volta para dentro de si mesmo, em busca da serenidade dos sábios, demonstrada pela prática a Caridade, pela exaltação das Virtudes e pelo estudo constante, exigências impostas ao homem sensato pela sua própria consciência.

Para se preparar para a batalha contra a ignorância e a tirania, o obreiro da libertação precisa se orientar pela Verdade, pela Ciência e pela Tolerância. O silêncio e a meditação fazem o homem prudente, menos exposto ao erro e à repreensão, apto ao desenvolvimento de suas potencialidades, como a polir mais ainda a pedra em que molda seu caráter, com assiduidade e tenacidade, em detrimento dos caprichos do ego.

É a isso que Paul Tillich[2] chama de “coragem de ser”, ou seja, é a decisão que se toma de ir em direção a um ideal, sem se importar com a possibilidade de não ter um retorno satisfatório ou qualquer reconhecimento. É fazer algo que se acredita ser adequado. Escolhe-se ser um defensor da liberdade, da justiça e da verdade. O eu fica em segundo plano.

Então, algum mistério move o sujeito a buscar se unir com outras pessoas e tratá-las como se fossem seus irmãos. Algum mistério divino incomoda o homem, ao ponto de fazê-lo sair do seu ostracismo quase que natural dos dias atuais e buscar se encontrar com outros, que incomodados da mesma forma, se propõem a serem como irmãos e a buscar o bem mútuo.

Assim, o silêncio e a meditação serão ferramentas de suma importância, pois, o homem loquaz não pode ouvir a voz da prudência, nem dar espaço à especulação científica, que conduz à Verdade. 

Aquele que tem coragem para se calar e se colocar na posição de ouvinte, este sim, está preparado para ouvir, escutar e entender. Porque se ouve com os ouvidos, mas se escuta com o coração e se entende ao meditar longamente.

Isso nos esclarece ainda mais sobre a nobreza da opção do homem que busca na prática do bem a possibilidade de servir ao propósito do crescimento da humanidade. Na verdade ele está atendendo ao chamado do próprio Deus, conforme diz Vanhoye[3], ao afirmar que "o sacerdócio não é uma posição à qual o homem possa elevar-se para colocar-se acima dos seus semelhantes. É um dom de Deus, que coloca o sacerdote a serviço de seus irmãos".
E com o dom vem o Dever, inevitável necessidade que tem o homem social, ou seja, aquele que vive em comunidade com outros homens, de servir ao outro, a quem convencionamos chamar de “o próximo”.
Diante de tal compromisso, se impõe a necessidade de preparo constante, de busca incessante de capacitação, de conhecimento de si mesmo, do mundo ao seu redor e da Vontade Divina, a qual é necessariamente, o motivo da busca do Homem, que pode ser traduzida pela busca da libertação de si mesmo e de todos os homens das garras da ignorância e do fanatismo, das trevas da idolatria e da loucura do egoísmo.
A chave para alcançar tal fim é o silêncio contemplativo, emblema do domínio da razão sobre as palavras, que indica mais uma vez a necessidade de uma busca silenciosa, cuidadosa e bem administrada, pelo cumprimento do ideal estabelecido, qual seja, encontrar o elo de reconciliação com o Criador.
Assim devemos viver, conviver e coexistir, nós, os seres humanos, herdeiros e mordomos da criação. Nesse ambiente de autopromoção e cuidado mútuo é que é possível se manifestarem as bênçãos do Senhor, sejam elas no campo material ou no espiritual. Nesse ambiente é que pode haver vida para sempre, como nos lembra o Salmo 133.

Referências:

A BÍBLIA SAGRADA. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. 2ª ed. Barueri – SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.
TILLICH, Paul. A Coragem de ser. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
VANHOYE, Albert. Sacerdotes Antigos e Sacerdote Novo. São Paulo: Academia Cristã.2006


[1]     Bíblia  - Almeida Revista e Atualizada, 1999. p318.
[2]     Tillich, 1976. p 122.
[3]     Vanhoye, 2006. p 197.

De Calvino aos nossos dias.

Uma reflexão sobre a evolução do pensamento calvinista sobre o dogma da justificação.

O homem é abençoado maravilhosamente por Deus com a capacidade de renovar diariamente a sua mente, de modo que, a cada dia, pode ter uma nova impressão sobre algo, além do que tinha no dia anterior. O lado negativo dessa capacidade está no fato de que, costumamos nos apegar ao brilho do novo, em detrimento do saber acumulado em todo o passado.
Não pretendo aqui de forma alguma, defender uma idéia retrógrada de que se devesse manter costumes milenares, ou que não fosse útil a reflexão. Não me arrisco ainda, a assumir uma postura liberal e progressista, sem balizas, mas, tão somente reunir alguns poucos dados históricos que possibilitem uma análise da evolução de uma única nuance de um pensamento que, renovado, remoldado, transformado e adaptado, pode não ter hoje, muito mais conteúdo original, que o próprio conceito, se o tiver.

A Justificação pela fé

O significado da Justificação, segundo David Schaff, foi um dos dois pontos determinantes da divisão na Igreja Ocidental no século XVI.
Contrariando a idéia apregoada e bem aceita na época pela Igreja romana, da ponte eclesiástica pela qual se alcançava a Cristo, e consequentemente à salvação, os reformadores conclamaram os cristãos a darem ouvidos à voz de Paulo, onde poderiam aprender que por meio da fé unicamente, se poderia alcançar a Cristo e sua salvação. É aí que começa nossa caminhada.
Consideradas as centenas de anos que nos separam de Lutero e Calvino, além da imensa distância cultural, entre muitos outros fatores a distinguir os dois momentos, o que nos resta daquelas idéias? Podemos nos chamar reformados sem colocar em risco os paradigmas da Reforma? O que diriam os reformadores sobre a igreja reformada de hoje?

Calvino

Calvino teve em sua época, a despeito de algumas opiniões em contrário, tanto lá quanto cá, uma importância fundamental na formação de um pensamento que perdura até os dias atuais, embora haja uma enorme discrepância entre o que encontramos em seus escritos e a prática eclesiástica que conhecemos.
Uma tradução para a língua portuguesa, da obra La pensée de la Réforme, de Henri Strohl, publicada em 1963 pela ASTE, com o título O pensamento da Reforma, insere Calvino na segunda geração dos reformadores, trazendo um novo impulso à Reforma, que já perdera parte do seu vigor original.
Essa obra exalta Calvino à condição de o maior exegeta de seu século, caracterizado por sua forma clara e pelo esforço em harmonizar todos os textos bíblicos. Segundo os responsáveis pela obra, "conforme se baseie num ou noutro de seus escritos, pode-se apresentar Calvino como um asceta ou como partidário da alegria de viver”. Mas ele mesmo definiu com o termo sobriedade, o equilíbrio entre as duas atitudes.

Calvino e a justificação

Em sua clássica obra Instituição da Religião Cristã, popularizada como "As Institutas", Calvino expõe seu entendimento sobre a justificação em "Deste modo nós afirmamos em resumo, que nossa justificação é a aceitação com que Deus nos recebe em sua graça e nos tem por justos. E dizemos que consiste na remissão dos pecados e na imputação da justiça de Cristo" e em "Pois não há texto que melhor prove o que venho afirmando, que aquele em que Paulo ensina que a suma do Evangelho é que sejamos reconciliados com Deus, porque Ele quer nos receber em sua graça por Cristo". Calvino se embasa nos textos de 2Co. 5:19-21 e Rm. 5:19 para afirmar que a ação de obediência de Cristo foi suficiente para a justificação dos que nele crerem.

A Confissão de fé de Westminster

A Confissão de fé de Westminster é um tratado elaborado após longos debates e que reuniu os expoentes da teologia reformada, com a finalidade de firmar os princípios da igreja, em um período de grande turbulência entre ingleses e escoceses principalmente. Sofreu grande influência dos presbiterianos da época, e é tida atualmente como base doutrinária em outras denominações, mas, principalmente, nas Igrejas Presbiterianas.
No capítulo XI, que trata da Justificação, é afirmado que
“Os que Deus chama eficazmente, também livremente justifica. Esta justificação não consiste em Deus infundir neles a justiça, mas em perdoar os seus pecados e em considerar e aceitar as suas pessoas como justas. Deus não os justifica em razão de qualquer coisa neles operada ou por eles feita, mas somente em consideração da obra de Cristo; não lhes imputando como justiça a própria fé, o ato de crer, ou qualquer outro ato de obediência evangélica, mas imputando-lhes a obediência e a satisfação de Cristo, quando eles o recebem e se firmam nele pela fé, fé esta que possuem não como oriunda de si mesmos, mas como dom de Deus”.

Conclusão

Aqui é repetido o que já havia sido dito por Calvino, e ainda reforçado com um tom peculiar, quando se ressalta o fato de que na justificação, Deus não considera a própria fé como justiça, mas, a ação de Cristo em que a fé se apóia. Isso parece ser uma sistematização do pensamento de Calvino, acrescido desse importante detalhe: Calvino se ateve em frisar que só pela fé se é justificado, enquanto na confissão de fé de Westminster, pode-se claramente observar a noção de que a fé é mero meio para se obter o acesso à justificação, cuja causa efetiva se encontra no ato de Cristo em “morrer a morte do pecador”.
O grande risco de se interpretar a fé como a fonte da justificação, é sem dúvida, a clara inversão de valores que desvaloriza a misericórdia de Deus na ação de Jesus e transfere o mérito a um simples assentimento humano. Há que se ter muito cuidado com isso, ou nosso discurso cai em grave contradição.

O perfil do líder cristão, segundo a Epístola a Tito


Ao tomarmos o contexto de formação e luta por estabelecimento, que a igreja enfrentava na época da produção do texto, surgindo como crítica a uma religião forte e bem estabelecida na sociedade, como era então o judaísmo, podemos nos perguntar pelo motivo de haver tão grande semelhança com os problemas atuais da igreja e aqueles que Paulo já percebia e contra os quais advertia a Tito. Se hoje o cristianismo já se estabeleceu praticamente em todo o mundo, era de se esperar que já fosse algo fácil de ser entendido. Se não o é, causa preocupação, pois, não parecemos ter mais dois mil anos para, descobrindo o problema, reprogramar todo o cristianismo em direção à verdadeira verdade.
Paulo orienta Tito a ser modelo, a ser destemido e atrevido, mas de palavras sábias e poucas, porém graves, ou seja, incisivas, sem delongas ou medo de melindres. É o que parece que, Paulo, como legítimo instituidor da igreja que o era, ou se sentia, esperava dos líderes que deixava a estruturar as igrejas por onde passava. Russel Shedd[1] diz que o líder cristão é responsável pela escolha dos objetivos do grupo que lidera, em conformidade com a vontade de Deus, devendo observar a lei e o alvo dEle.
Paulo direciona Tito à luta contra determinadas posturas, bem como, prescreve já de antemão as características desejadas do “homem de Deus”. Podemos entender daí, que Paulo, entendendo-se como responsável pela expansão e sistematização do Evangelho, deixa claro que conhece a vontade de Deus, conhece o alvo de Deus e a lei de Deus. Mais que isso, ele propõe que a vontade de Deus é que o homem obedeça à lei, não a lei formal e engessada do judaísmo, mas a lei suprema do amor, que determina o alvo de Deus, que não podemos entender ser outro, senão a redenção e a libertação de toda a humanidade da situação de alienação em que ela vive, em relação ao seu estado original e desejável.
Assim sendo, o que Paulo espera de Tito e dos líderes que este recebeu a incumbência de preparar, nada mais é que, sejam todos observadores desses três princípios que Shedd define como fundamentais na pessoa do líder: a vida dos líderes deve ser marcada por um profundo senso do chamado de Deus para servir outros. Eles devem estar sintonizados então, com o alvo de Deus; o líder deve ainda, discernir entre a vontade de Deus e a sua própria, evitando assim, o risco iminente de fazer parte dos tipos contra os quais Paulo adverte a Tito, a saber, os que afirmam conhecer a Deus, mas negam-no com seus atos (1:16); enfim, o líder precisa estar em sintonia com a lei de Deus, ou seja, precisa ser praticante da lei do amor, que é a que nos restou, segundo o próprio Paulo em 1Co.13:13.
O líder que cristão que entende que a vontade de Deus está na lei de Deus, a qual determina o alvo de Deus, esse ensinará a seus liderados a buscar na vontade de Deus a lei do amor, cujo alvo é a libertação.

Tanto Paulo quanto Tito, pelo que se pode perceber na carta, já tinham como certo, assim como o temos hoje, que o povo não está naturalmente apto a preencher os requisitos esperados de um observador da lei de Deus, nem mesmo das leis humanas. Os próprios líderes da época, não diferentemente dos de hoje, tinham que ser escolhidos a dedo, face à carência de valores morais adequados, já existente, assim como hoje. Alí já se encontravam os famigerados exploradores da boa fé das pessoas, com o intuito único de angariar “lucro ilícito” pela propagação de ensinamentos falsos e diversos do verdadeiro Evangelho. As advertências que Paulo faz a Tito, são para que cale tais vozes, através da repreensão dos seus possíveis ouvintes, para não serem levados por tais ensinamentos e doutrinas criados por homens “desviados da verdade”.

Como entraremos nós nesta luta contra a natureza enganosa dos nossos próprios corações? Como calar os que desviam os incautos? Como praticar as claras instruções de Paulo a Tito nos dias de hoje? Eis o desafio do teólogo, do líder, de cada crente que se sente chamado a proclamar o Evangelho do Reino de Deus.


[1] O líder que Deus usa. Ed. Vida Nova.

Abuso Espiritual - problema grave e atual

Não há dificuldade para enxergarmos em nossos dias, tanto no meio secular quanto nos tantos redutos das diversas vertentes de manifestações religiosas com as quais convivemos, situações de manipulação, controle, opressão. Esta é apenas uma das facetas da ação do ser humano contra sua própria espécie, oprimindo e espoliando o semelhante, às vezes em função da satisfação do próprio ego. A essas situações chamaremos aqui de abuso espiritual, posto que frequentemente ocorrem a partir exigência do uso da fé e do exercício da espiritualidade para a concretização da circunstância que evidencia a manipulação e o abuso.
Uns dominam pela via política, outros pela violência física, pela hierarquização das relações sociais, comerciais, de trabalho, enfim, sempre que há relação entre seres humanos, pode-se esperar algum tipo de dominação, manipulação e abuso, como se pode observar na história de todas as civilizações conhecidas.
No caso específico da manipulação e do abuso espiritual, há um agravante que combina a ganância e a ignorância. Ganância por parte de ambos, abusado e abusador, pois o primeiro acredita na loucura de poder manipular o poder da divindade em seu benefício, como um gênio da lâmpada. O segundo, por sua vez aproveita a ocasião para se beneficiar materialmente ou para se afirmar socialmente às custas da exploração da loucura do primeiro. Ignorância também por parte de ambos, pois quando assim agem, demonstram desconhecer o sentido da existência humana, o conceito de ética e de moral; demonstram enfim, a condição desumana e desumanizadora de suas existências.
Tornou-se comum, pessoas sem formação adequada, ou seja, sem formação profissional específica nas áreas ligadas ao estudo do comportamento humano, se aventurar a “dar conselhos” pela TV, usando exemplos de problemas comuns da vida cotidiana das pessoas para apresentarem suas propostas de solução por atacado, como se isso funcionasse da mesma forma para todos. É claro que talvez nenhum desses animadores de programas de auditório assuma pretender influenciar os seus espectadores em suas decisões do dia a dia, mas não se pode negar que isso acontece, já que é conhecido o poder de influenciar que tem a televisão, principalmente sobre pessoas naturalmente frágeis ou debilitadas por problemas.
Não bastasse a falta de preparo profissional desses “líderes virtuais” de massas, alguns deles apelam para a fé religiosa de sua plateia, criando situações de verdadeira manipulação e abuso espiritual, nas quais as pessoas passam a acreditar na necessidade de seguir as orientações doutrinárias impostas sutilmente em tais programas, como forma de resolver seus problemas. E não unicamente os problemas espirituais, mas, todo e qualquer tipo de problema, desde uma enfermidade simples, ou problemas de relacionamento familiar, à restauração do casamento. As questões financeiras também são tema e costumam receber maior destaque, gerando frequentemente notícias de golpes, extorsões, desvios, manipulação e abuso.
Da mesma forma que pela TV, essas verdadeiras empresas, encabeçadas por figuras carismáticas, de discurso eloquente e aparência próspera, arrastam multidões para seus templos, onde as “ovelhas” são submetidas a uma verdadeira “tosa” de seus bens materiais, além de serem aprisionadas em jogos de manipulação violentos e cruéis. O pior é que tudo isso é feito em nome de Deus e da obra redentora de Jesus Cristo.
Mas não se pode perder de vista a realidade de que essas vítimas de abuso não foram arrastadas violentamente, nem dopadas ou totalmente enganadas. É fácil perceber que grande parte dessas pessoas busca uma cura milagrosa instantânea, uma solução imediata para seus problemas. E mais, estão quase sempre dispostas a "pagar" por isso. O que quase todos não querem é compromisso ou vínculo com a igreja e com Deus. É a moda da religião "fast food", sob encomenda e com um fim específico e momentâneo.
Um dia, porém, muitas dessas pessoas se percebem perdidas no meio dessa situação, na qual entendem que não precisam e não devem ficar e resolvem abandoná-la. É hora de receberem a escuta e a acolhida do aconselhamento sadio e o cuidado adequado para a reconstrução de sua estrutura psico-espiritual, que nesses casos, frequentemente fica em frangalhos.

Lembrança dos tempos da faculdade de Teologia

Pouco tempo após a formatura, a 1ª turma de bacharéis em Teologia da FATE-BH
com reconhecimento do MEC já não se encontrava mais, mantendo poucos contatos apenas por e-mail e um grupo de discussão que se formou mesmo pra não deixar o pessoal se dispersar (o grupo também durou pouco e não deu qualquer fruto).
Certo dia, foi veiculado na internet o desabafo do apresentador de televisão Luciano Huck, que tinha sido assaltado e perdido seu Rolex.
Uma das nossas colegas, queridíssima do grupo, mas de postura um tanto conservadora, manifestou-se contraria à indignação do apresentador.
Segundo ela, ele precisava se converter .

Aí eu não aguentei...... escrevi o texto abaixo e mandei pra ela(na transcrição abaixo,substitui o nome dela por *****, por questão de ética e respeito).

Anos depois, resolvo publicar o texto, que ainda é bastante atual e ainda reflete o que penso. Espero que sirva para algo de bom, ou seja, pra fazer alguém pensar.....

Vamos ao texto:

Desculpe *****, mas é lamentável ter que concordar com o Luciano e ao mesmo tempo, concordando, discordar em parte de você.
Sabe o que eu acho disso tudo? Acho muito normal. Quero dizer: acho que isso não tem outro jeito de acontecer, não.
Acho mais...
Que a Igreja que está aí não vai resolver porcaria nenhuma, nem hoje nem nunca.
Acho também, que esse cristianismo performático estabelecido em nosso meio, é uma farsa criada para manipular a populaça faminta, que recebe "pane et circus" e se cala diante do sangue derramado da própria mãe.
Aquele judeu de Tarso destruiu todo o sistema filosófico que Jesus arquitetou.
Que mais você espera, de um grupo que vive um sonho coletivo totalmente fora de propósitos e sem compromisso com a realidade?
Cristianismo de fim de semana.
Um grupo de mútua vigilância, em busca do erro do outro, e não de cuidar do outro lá fora, carente de amor, não de palavras pomposas e vazias, de sentido duvidoso e inseguro.
Um grupo que quer ser chamado pelo nome de cristão, mas que nunca fez ou pretendeu fazer o que o Cristo ditou como regra de comportamento. Não estou falando de moral sexual ou social, mas de comportamento fraterno em relação ao outro, seu semelhante.
Um grupo que adora repetir chavões e jogar a responsabilidade das mudanças no "sangue de Jesus". Se o sangue de Jesus não resolver o problema, eu é que não resolvo.
Um grupo de egocêntricos retrógrados, que arrepia todo ao perceber que os "diferentes" agora têm o direito de fazer parte de suas fileiras. É isso mesmo: Morrem de medo de ter que se sentarem ao lado de um homossexual, de um viciado, de uma prostituta, de qualquer pessoa que tem sua verdadeira face exposta, no banco de sua igrejinha nojenta, hipócrita e doente, mas que se orgulha de ser o lugar dos "santos" e eleitos.
Dá vontade de vomitar quando ouço a falsidade do "fale pro irmão do seu lado que ele é importante pra você". Lá fora, longe do calor aconchegante do templo, no dia-a-dia desse mundo cão, estão os que deveriam ser importantes pra você. Mas, esses são pecadores, sujos e mal cheirosos, não é mesmo, igreja?
E vem você (não você *****, mas você, igreja) com esse discurso hipócrita de que temos que falar do amor de Jesus, falar do poder do sangue, falar disso e daquilo e pronto?
Sabe o que a igreja tinha que fazer? Tinha que ficar calada e AGIR. Jesus não mandou ninguém sair falando pelos cotovelos não. Tudo o que ele fez foi AGIR. Aí, quando a gente convida um grupo de Teólogos recentemente formados por uma escola de postura revolucionária, para discutir os problemas atuais e tentar apontar possibilidades de saída, adivinha qual é o resultado? Cada um tem um problema pessoal pra cuidar, uma reunião de célula pra comandar, uma igreja para pastorear. Tudo, menos discutir o problema e buscar uma solução.
Quanto ao Luciano Huck, querida *****, ele está fazendo o que eu fiz quando fui assaltado (e já fui três vezes - perdi minha moto, meus documentos, meu celular, etc. - só não perdi um ROLEX porque não tinha um). Ele está jogando pra fora sua ira, vomitando a sensação de impotência que ficou em seu estômago. Não creio que ele precise de um "salvador" como o que o cristianismo tem pra oferecer. Isso só iria colocar uma pedra sobre sua indignação, como aconteceu comigo. Amanhã ele ganha outro Rolex e dentro de dois meses tudo volta ao normal.
Até a Igreja, vai ficar meio agitada nos primeiros dias após algum acontecimento indesejado e constrangedor, mas, vai voltar ao seu lugar dentro de algum tempo. Eu já assimilei as perdas. Todo mundo assimila, mais cedo ou mais tarde.
Aí o hipócrita do Weverton vai lavar as mãos e dormir o sono dos justos, pois já falou o que tinha que falar. O importante é que, no porvir, nenhum sangue poderá ser cobrado das minhas mãos, porque eu falei o que tinha que ser falado. Jesus que se vire e ache alguém pra pagar a conta.
Obrigado *****, por ter dado o corte necessário a esta verborragia alucinada, talvez ineficaz e carregada de ressentimento e sensação de impotência.

Abraço fraterno.
Weverton.

Geeeente..... eu nem tinha lido ainda o vol. XXI do Freud....