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Cada dia de outono

 

Cada dia de outono

Weverton Duarte Araújo

 

Cinzento inicia ruidoso

Assim percebo chegar

Do nada, insiste em voltar

Agourento dia teimoso

 

Diz que não vai demorar

Inocente, outra vez acredito

Até me cansar do maldito

 

Demora sim, com calor desditoso

E é sem-fim, sem hora de acabar

 

Outra vez não, senão vira moda

Um dia assim tão sem prazer 

Tudo fica ruim ter que fazer

O menor movimento incomoda

No calor infernal de onde habito

Ou me mudo daqui, ou louco vou ficar.

Cantinho do sossego




Aqui no meu cantinho do sossego
vejo as estrelas todas que quiser
as luzes da cidade não me ofuscam
e quando chove corro lá pra fora
na rede curto o som do céu caindo
em gotas se entregando ao seco chão
e se não chove ainda é bom demais

Aqui aprendo e vivo o desapego
que não vivi em outro chão qualquer
há tanta novidade e todas pouco custam
que sei, daqui nunca mais vou embora
o povo aqui te cumprimenta rindo
se vou na padaria e compro pão
no caixa ouço: depois cê volta mais

Sou bem tratado onde quer que chego
Dá pra rodar o centro todo a pé
Ainda tem gente andando de fusca...
As lojas todas abrem às sete horas
E às cinco todo mundo já vai indo
Trânsito tumultuado, aqui tem não
A pé, de carro, ou moto, tanto faz

Parado aqui eu jamais serei pego
Pois há trabalho o tanto que quiser
É só plantar que a colheita é justa
Tem cana, manga, graviola e amora
Tivesse espaço tinha um tamarindo
Colhi caju, canarinho colheu mamão
e os beija-flores em seu leva e traz

Meu Pai, este lugar é meu chamego
agrada a qualquer um que aqui vier
o lugar bom que tanta gente busca
só mesmo aqui achei até agora
em Bom Despacho, esse lugar lindo
foi que vim sossegar meu coração
agora sei que vou viver em paz.

O que quer uma mulher


O que quer uma mulher?

                                             Weverton Duarte Araújo




Ouçam senhor sizudo morávio 

e neológico francês o que quer 

o vasto negro e insondável

continente a que chamam mulher

mais que ser objeto-a indomável   

apenas ser única é que ela quer.



Ser cortejada de um louco andarilho

sem o saber como Cervantes fez

Mãe de um deus-falo e tão pouco filho

mas sem perder de Maria a jaez

indo adorada por mãe de um caudilho

vê-lo perder-se sem pompa e altivez



Nada mais pede a maldita sem nome

 Que vós bem mortos fiquem a eternidade

E não lhe encontre o desejo e a fome

Mas que lhe encaixe uma identidade

Já que o tempo a tudo consome

Também consuma a vossa maldade


O que deseja esse ser que não-é

e mesmo assim em si sente orbitar

as tão profusas pulsões inconscinentes

Tão pouco almeja, enfim tenham fé

que quer apenas um certo lugar

onde dispor seu sujeito indigente


 Mas esse ser e não-ser delicado

por mais que ache o viver desatino

e leve o peso sem tê-lo buscado
 
inda que sofra não larga o destino

qual dócil anho suporta calado

dando ao viver um tal qual que divino


E mais o que poderia querer

que vossa douta ciência olvidasse

pois do mau fado aceitou ser cativa

só se a vendo na Terra a sofrer

um deus confuso ao céu a elevasse

e de mortal lhe fizesse uma diva.

As novas moscas azuis.

Centenas vinte e uma se arrastaram
de anos de labuta em vã procura
que tantos homens bons a si mataram
sem conseguir ao mal trazer a cura.
De tanto se esforçar se arrebentaram
sem ver a causa da própria loucura.

Como o insano "rei" que diz Machado...
movido pela vil excentricidade
e pelo torpe amor a seu império
já não se importa em ser tido por louco
espreme entre os dedos o belo achado
dá fim precoce à suma raridade
sufoca a mosca azul e seu mistério
e fecha a porta a tudo por tão pouco

Assim, o mundo e eu e todos nós
sem nos ater ao que mesmo interessa...
pra dentro e só pra dentro enfitamos.
Por fim, no fundo o breu e estamos sós
não nos valeu correr, viver em pressa...
pois nos perdemos em crer que lucramos.

Buscamos não o bem, mas sua forma.
Pra que ser?  Nos importava o parecer...
até que ninguém mais nos suportasse,
de tanto nossa falsidade conhecer.
Já que em ouro a mica não transforma
ainda que se burilasse a não mais poder...
e mesmo assim nenhum de nós parasse
na ânsia louca de parecer mais ter.

Barbosa até se envergonhou de ser honesto
Aos moços ora, implora por virtude
que não sejam silentes, mas se irem sabiamente
pra não deixar prosperar as maldades.
E eu de cá repito meu lúgubre canto infesto
e já com o peito abarrotado de inquietude
Pois não há  Ruis e Assis ultimamente
Nem há quem queira ouvir as verdades.

Weverton Duarte Araújo

Antes da hora (elegia a Vander Lee).

Morre sem a menor necessidade, sem um pingo de concordância de quem quer que possamos imaginar, um anjo que a tantos corações acalentou, que a tantos sofredores deu sua dor por espelho, para talvez tornar a dor do outro um pouco menor, já que a desnudava e desmascarava com maestria.

Morre um amigo nosso, que nem precisava nos conhecer para ser mais íntimo. Sinto que ele sentia o que nos tornava iguais. Sinto que ele sofria cada dia e agora não sofre mais, pelo menos no plano em que ficamos sem ele.

Morre um bastião da poesia e da boa música. Cai um balaústre da cultura. E isso deixa à mostra o empobrecimento cultural que nos aflige, pois muito nos custará apontar um que seja, que o possa substituir em qualidade.

Da mesma forma, ficamos sem uma excelente referência no que diz respeito à ética, ao humanitarismo, à decência e aos bons princípios. Esse moço era um exemplo de humildade, de boas maneiras e de doçura, itens em falta nas prateleiras da moral hodierna.

Duplamente então, ficamos a fitar o horizonte, não esperando aviões, mas a desejar que em seu jardim, Deus possa ouvir o menino que viveu 50 anos mas sobreviverá outros tantos, em suas letras e músicas inigualáveis, aqui deixadas órfãs tão precocemente.

Viva bem Vander Lee, onde quer que seu espírito repouse, pois se seu corpo padeceu, sua alma é imortal.

S/A Sociedade Anômala



Extraído do livro 
CIDADE MULHER - Dores e sabores da vida e da morte.
de Weverton Duarte Araújo 



S/A


Sacanagem no congresso
Ouvimos diariamente
Compram-se uns aos outros
Imorais, criminosos
Empregados
Do vício e do erro
Aviltadores
Do bem público
Esbanjadores do alheio

Assim são
Nossos ilustres edis
Ônus que herdamos
Maldição incurável
Aos olhos humanos
Lixo moral abominável
A entregar o país.

Só nos resta lamentar
E orar por
Mudança

De Alah, Javé ou Jesus
E esperar que
Uma luz acenda

Bom mesmo é ser criança

Bom mesmo é ser criança
sem vergonha de chorar
sem pensar no que quer dizer
nem ter hora pra sorrir

Bom é só ter na lembrança
a vontade de brincar
de gritar e de correr
ter lugares aonde ir

Tão bom não temer mudança
graça em tudo encontrar
desbravar e conhecer
caminhos novos abrir

E a gente nem se cansa
quer de novo começar
ver o dia amanhecer
e ver a noite a cair

roupa suja, cachos, trança
pouco tempo pra estudar
tanta coisa a aprender
quanta vida a descobrir

gente grande é outra dança
pra tudo tem que pagar
nem tudo pode comer
nem tempo tem pra me ouvir.

ANABELA DUARTE

Assim será.
Não podia ser melhor.
A vida a continuar.
Bem-vinda criaturinha,
Este mundo já te espera.
Linda como a mãe será?
Ao pai os olhos puxará?

Deus há de abençoar
Uma flor a nós dará
A nos trazer emoção
Rir muito e até chorar
Ter feliz o coração
E nunca mais sós ficar.

Cordel da História do Clã Duarte Araújo

I

Peço licença a vocês
sua atenção por favor
seu silêncio e calmaria
pra contar como se fez
com muita luta e amor
a história que aqui se inicia

esta história, meus amigos
que agora vou contar
garanto que é verdade
não tem lutas nem perigos
mas faz rir e faz chorar
a gente de toda idade

é uma história de verdade
que hoje faz cinquenta anos
tem começo e não tem fim
se espalhou por muitas cidades
fugiu da rota, dos planos
mas começou lá em Itaobim

quem lembra não tem saudade
Deus sabe o quando doeu
de quanto a vida era dura
muito ficou na vontade
tanta coisa se perdeu
pouco virou em fartura

um povo formado em pobreza
artistas do sobreviver
nascidos no Jequitinhonha
com pouca comida na mesa
sem festa, sem luxo ou prazer
mas na cara muita vergonha

ele saiu lá de Joaíma
pequena cidade mineira
quase esquina da Bahia
ela era ainda menina
pequena, bonita e faceira
mas da vida pouco sabia

pois deu que os dois se encontraram
quis Deus e os abençoou
e assim é que era pra ser
que logo então se casaram
a família começou
pra esta história acontecer

Montes Claros, outra vida
outro povo, outra cultura
outra saída, afinal
mas era louca a corrida
que entraram na aventura
de viver na capital

os dois eram gente honesta
e nunca deixaram de ser
muito cabrito e pouca corda
muito trabalho, pouca festa
pra dar aos onze o que comer
alguém aqui não concorda?

a justiça é que atesta
pra todo que queira saber
que do meio desta horda
não saiu um que não presta
quem vai me contradizer?
não nasceu nenhum calhorda.

II

Pois então é isso, gente
bons pais criaram bons filhos
e mesmo que algum de repente
descuidou, saiu dos trilhos
a mãe orou pela gente
pai puxou pelos fundilhos

teve cuidado e palmada
até com força demais
mas a moral foi formada
em cada moça e rapaz
e assim a meninada
se tornou gente de paz

todos são trabalhadores
ninguém vai poder negar
cada um com suas dores
mas nenhum sem se cuidar
esses seus onze amores
não colhem o que outro plantar
podemos sofrer horrores
mas nunca vamos roubar

então se orgulhem queridos
sua missão foi cumprida
seus filhos estão criados
mergulhados nos perigos
eis que estão todos com vida
e uns até bem colocados...

O mais velho sorri triste
até faz cara de sério
mas é pura zombaria
no fundo é muito feliz
de sonhar jamais desiste
largou até o presbitério
mas não reclama um só dia
isso ele mesmo é quem diz

Depois dele vem Gizele
pura energia do céu
que Deus trouxe a esta vida
emoção à flor da pele
mais doce que ela só o mel
sempre está de bem com a vida

Elis vem logo depois
com seu jeito enigma puro
natureba, sabe tudo
completando os outros dois
clareia esse mundo escuro
dos males é nosso escudo

O Marcinho pequenino
que já foi da pá virada
tomou jeito, entrou na linha
deu a volta no destino
tá com a família criada
virou dono de cozinha

Luciana jóia rara
transpira fragilidade
se olhar pra ela, ela chora
mas resiste e nunca para
é só doçura e bondade
o amor em seu peito mora

A Renata é outro doce
professora de criança
de prata é seu coração
nunca fez mal a quem fosse
tudo o que procura, alcança
dá prazer ser seu irmão

Fabiano não sossega
o mais inquieto dos onze
não se encaixa, é um estouro
mas quem o conhece não nega
sua alma é puro bronze
seu coração é de ouro

Anderson não tem juízo
tá longe, logo tá perto
mas também não atrapalha
sempre vem quando é preciso
tranquilão, mas muito esperto
tá sempre pronto, não falha

Isabella, outra figura
que esperteza, que guerreira!
A vida desafiando...
se a tristeza se afigura
ela apronta a quebradeira
e todos saem ganhando

Wilson é um ser sem igual
todos hão de concordar
esse não tem precedência
não sabe o que é fazer mal
sempre está pronto a ajudar
é o rei da paciência.

Fernanda a caçulinha
cheia de luz e energia
nos passos da mãe foi criada
sempre foi meio doidinha
nos enchendo de alegria
vende tudo essa danada.

III

Quase todos se casaram
uns até mais de uma vez
e somando os que se agregaram
a prole grande se fêz.

Geraldinho, Rose, Cristina
são quase irmãos meus cunhados
não se acha em toda esquina
falando muito, ou calados.

Andinho, Jaques e Rute
o Junior veio depois
nota dez, ninguém discute
cada um vale por dois.

Outros entraram e saíram
mas, pra não causar ciúme
nem alimentar contenda
digo só que contribuíram
espalharam seu perfume
e seguiram sua senda.

IV

O clã agora é bem forte
inspira sobriedade
segue em frente cada dia
guiado por boa sorte
vivendo em fraternidade
sempre em boa companhia

Vinte netos já se contam
meninas de muita beleza
que dão orgulho à família
uns quietos, outros aprontam
meninos de muita esperteza
não caem em armadilha

Tios, primos, muitos temos
espalhados pelo mundo
dando vida ao nosso nome
mesmo aqueles que não vemos
amamos bem lá no fundo
livre-os Deus de frio e fome.

Tem amigos tão chegados
como o nosso Geraldão
mais chegado que um vizinho
é mesmo considerado
lembrado com tal carinho
mais parece ser irmão.

Inimigos nós não temos
e que sempre seja assim
aprendemos ser da luz
uns aos outros defendemos
meu irmão cuida de mim
como ensina o bom Jesus

O velho Alonso hoje é manso
já cansou de correria
é tranquilo que só vendo
mas Zelda não tem descanso
seja de noite ou de dia
tá rezando ou tá vendendo

V

Vou terminando essa história
que na verdade é sem fim
e da qual me orgulha pertencer
pois nestes dias de glória
com tanto bem sobre mim
não há família melhor pra ter.

Pais queridos, raiz nossa
e que em nós ainda agem
que ainda nos fazem crescer
embora pareça troça
recebam nossa homenagem
foi o que deu pra fazer

E vocês que só quiseram
como todo mundo quer
ter na vida algum prazer
olhem tudo o que fizeram
se colocando de pé
só pra lhes agradecer

Pois recebam nossas palmas
e que ouça o mundo inteiro
que nós amamos vocês
do fundo de nossas almas
fique claro de uma vez
que isso é puro e verdadeiro

Filhos, netos, genros, noras
juntos em uma só voz
parentes e amigos também
vos abençoam agora
e que Deus se junte a nós
lá do céu nos diga amém.

Para minha mãe.



No princípio era o sêmen
que se aventurou
por entranhas obscuras
e se fez carne

Depois de nove porções
de dias doloridos
ela me expeliu ao mundo
em meio a gemidos e muito sangue

E eu ,
agradecido pela vida
que dela docemente herdei
dou em troca
esta parca homenagem
que estendo a todas
essas maravilhosas criaturas
femininas de Deus.

Sou mulher


Sou mulher

como tal me considero

não por um desejo mero

ou por um sonho qualquer

dos homens ainda espero

o jogo do bem-me-quer


Bajulada ser eu quero

não por um homem qualquer

pois sou formosa, sou bela

a qualquer um não dou trela

quero muito, sou mulher


Sou vivida, não da vida

tenho ainda o que aprender

quero ser lida, entendida

quero sorrir, não sofrer.

Canção de ninar


Chega sono, traz torpor
durma agora, meu amor
que esta noite é toda sua
eu mandei parar a rua
e a turba louca calar

pra você dormir, meu anjo
foi que eu fiz este arranjo
e enfeitei com carinho,
um vento bem de levinho
fiz soprar pra te ninar

com cheiro doce, querida
qual folha há pouco caída
preparei seu travesseiro
sua cama, o quarto inteiro
nada vai te incomodar

dorme o sono da inocência
que eu peço a Deus, por clemência
que um anjo deixe ao seu lado
um anjo manso, calado
para seu sono velar

Amanhã, amada minha
quero ver sua carinha
depois da noite sem medo
acordando logo cedo
me sorrindo ao despertar.

Dorme mulher que amo
que já não sei como chamo
dorme filha que não tenho
pois eu, que não sei de onde venho
não sei de que te chamar.

A minha mulher

A minha mulher é melhor
Que qualquer outra no mundo
Está sempre ao meu redor
E com seu amor profundo
Já me conhece "de cór"
E ao meu coração vagabundo

Tantas mulheres conheço
Todas faltando uma ponta
Ela porém, desde o começo
A mim veio inteira e pronta

Essa mulher a quem amo
Não esbanja os predicados
De doçura e de beleza
Mas cura os meus machucados
E com ternura e presteza
Suporta ano após ano
Meus momentos desastrados
E chora na minha tristeza

Se choro ela busca o porquê
Não consegue me ver triste
A minha mulher é você
Ou essa mulher não existe.

Bilhetinho de advertência

Você que não quer morrer
que não quer ver o inferno
quer parecer o não ser
sem perecer, ser eterno

Pois saiba, estou esperando
a ver passar os seus dias
até que me chegue a hora
de lhe buscar, rindo ou chorando
lhe tocar com minhas mãos frias
tirar sua vida boca afora

e nem seu grito sera ouvido
é meu direito, assim eu quis
seu tempo, uma vez cumprido
lhe arranco o ar do nariz

a vida é minha meu caro
eu dou, eu tiro, é assim
eu lhe adoeço, só eu saro
são meus o começo e o fim.








Breve evangelho da obra de Maria e seu filho.

Oh bendita entre as outras, Maria
Que por Deus, obra santa fizeste
Sem temer opróbrio e zombaria
Recebeste em teu corpo um celeste

Atrevida em teu tempo, queria
Dar aos teus o melhor, eis que deste
E viver para ti não mais iria
Concebeste e Jesus à luz deste

Este então, mais ainda faria
Que a tudo, elencar ninguém vai
Mas, de tudo, o melhor, eu diria
Foi fazer-nos ver Deus como Pai

Deu ao cego a luz clara do dia
Fez andar, fez ouvir, fez viver
De tocá-lo, a doença saía
Seus ensinos faziam crescer
Mas em nós a maldade é tão fria
Que ao invés de honrar a Jesus
Barrabás era quem morreria
Nós pregamos o Cristo na cruz

Isso tudo porém, era a via
Pela qual Deus Pai quis nos salvar
Já que o sangue nosso não pagaria
Deu Jesus Cristo em nosso lugar

Ai de mim, pecador contumaz
Se não fosse o amor de Jesus
Que se deu como outro não faz
E morreu sem pecado na cruz
Pra que eu, nesse mundo sem paz
Pela graça encontrasse a luz

Eis a cura que o mundo espera
Eis o logos, Palavra do Pai
Eis o Espírito que nos revela
Aleluia, eis o Trino Adonai.

A Arte é o artista.



O que é a arte enfim?
Um rabisco sonoro,
uma trilha agressiva,
uma forma complexa
um ruído em bom tom?

É o jeito do artista
de querer produzir
forma, som, luz, cor, gosto,
tudo, até se exaurir?

É o suor que a pessoa
seja má, seja boa
derramou sobre a obra
será isso o que nos sobra?

Será sua amargura
desventura ou tristeza,
que ele enfeita de amor
e nos serve na mesa?


Poderia ser alegria
que transborda em seu ser
obrigando o poeta
a seu verso escrever?

Também pode ser ódio
que o martelo a bater
dá ao escultor o pódio
e a nós dá o que ver?

Pode ser a paixão
a loucura do amor
que escreve a canção
e afina o cantor?

E quem pinta o retrato
de toda coisa que vê
de onde lhe vem a mercê
que leveza dá ao tato?

Não são teus os dons, amigo
foi assim que ELE quis
Vem de Deus, eu te digo
              Só pra te fazer feliz

Morte e vida se respira

Por Weverton Duarte Araújo


O meu morrer diário é muito louco
Vou respirando o gás e assim prossigo
O oxigênio vai matando aos poucos
O que assim somente mantém vivo

O que me mata é que me faz viver
O que me caça é meu melhor amigo
Me traz saúde, faz envelhecer
Viver sem ele, morro, não consigo

Assim vivendo, morro a cada passo
A cada ato meu de respirar
O gás está presente no que faço
Só quem morreu o pode dispensar

Por isso vivo a morte todo dia
Nem ao dormir eu paro de morrer
E quando acordo, sonho a nova via
De protelar a morte em não viver.

Pai que chora



Oh, semente de mim
que se espalhou
por caminhos que desconheço

Oh, espelho de mim
que anda errante
pelo mundo que não vi

Filho meu, alma irmã
parte boa de mim
onde andam seus pés?
o que vêem seus olhos?
que deixei outro dia a chorar
que matei por não poder amar

onde andam seus pés, filho meu?
e aos seus olhos, que fim a vida deu?
andará pela sombra sem medo?
ou terá se perdido tão cedo?

eu que nunca pensei que algum dia
ao lembrar de você, choraria
hoje choro até não suportar
quanto tempo perdi sem te amar

Fiquei velho, cansado, morrendo
sem cabelos, coisas esquecendo
não vivi, não te vi aprendendo
tantas coisas eu quis te ensinar...

Mas, aprenda comigo, querido
tire proveito do meu castigo
não repita meu erro fatal
se a vida te der um amigo
parte da sua carne criar
com cuidado e carinho afinal
cuide dele até velho ficar.

Mãos e olhos.


Mãos de mãe e olhos de polícia
Olhos fechados para a realidade ou abertos a denunciar.

Mãos de paz e olhar de malícia
Olhar de não e mão de carícia
Mãos amigas que protegeram, tentando educar
Olhos fundos de fome e frio.

Mãos profanas, que violaram o mais íntimo
desses a quem deviam acariciar com amor e respeito
Olhos arregalados de pavor.

Mãos que espancaram. Mãos que furtaram.
Olhos que buscam respostas.

Mãos que maquinaram pelo bem e pelo mal
desses nossos pequenos.

Mãos deles mesmos, que mal orientadas, se deram ao erro.
Mãos anônimas de dezenas de profissionais
que com zelo e dedicação, ou muitas vezes,
sem mesmo saber a importância de seu ato,
outras ainda, apenas para cumprir ordem, agiram.
Umas até a contragosto, mas, agiram.

Olhos que deveriam ver, como prometeram,
mas, se negam a enxergar o óbvio clarão da realidade.
Olhos que choram em sua sensação de completa impotência.

Houve mãos que se juntaram em um ideal,
mesmo que distante, quase impalpável, mas, se juntaram.

Outras mãos se fecharam a sonegar, sonegadoras que são,
como muitas na história. A história não parou por isso.

O desejo é que, o olhar de Deus, que tudo alcança
e as mãos de Deus, que a tudo podem atingir,
sejam sobre todas as mãos e todos os olhos,
a julgar, a perdoar e a condenar,
segundo Sua eterna misericórdia.

Meu irmão.

Meu irmão


Meu irmão sem mão
me pediu um café
dei a mão?
Dei no pé.

Meu irmão sem pé
me pediu um pão
dei de ré
fui cristão?

Meu irmão sem chão
me pediu dinheiro
e eu disse não
me mandei ligeiro.

Nosso irmão sem fé
que estende a mão
nem sabe o que quer.
E você, cristão?

Olha o nosso irmão !!!
quer café, quer pão
e quer salvação.
E você, cristão?